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Blog do Dunder


POUT-POURRI

Como os cinco leitores deste blog já sabem de cor e salteado, saudade é uma das minhas marcas registradas. Tenho uma inexplicável saudade constante, saudade até de coisas que não vivi.

Morar sozinho, em outro estado, longe de tudo e todos que constituíram, ao longo dos meus até aqui 43 anos, tem-me deixado, como é previsível, ainda mais saudoso, mais desejoso de relembrar momentos e pessoas. Some-se a isso o repertório mais-que-variado do Spotify e, pronto, minha saudade ganha trilha sonora.

Certa vez, como já narrei aqui no blog, fui reconstituindo minha vida de adolescente enquanto caminhava pela Vila Maria, bairro em que vivi 35 dos meus 43 anos e onde, até pouco tempo, minha mãe ainda morava. Ouvindo Gotan Project, fui passando por lugares que fizeram parte das (muitas) dores e (algumas) delícias que me construíram o caráter (caso tenha curiosidade, o texto se chama "Eu tenho uma história, ao som de Gotan Project"- http://mauro.dunder.blog.uol.com.br/arch2010-05-16_2010-05-22.html).

Hoje, procurando músicas para a minha lista do Spotify, a tal saudade bateu com tudo. E veio uma espécie de pout-pourri, de trilha sonora para alguns momentos da minha história. De quebra, ficou uma seleção musical bem eclética, que tomo a liberdade de perpetrar aqui:

1. "My sharona", do The Knack: deslocada de seu tempo, esta música me leva direto para meados da década de 1990, quando conheci a Luciana Quirino e, por meio dela, a Lílian Quirino. Éramos as "Irmãs Ciganas", inseparáveis, e isso, sem que eu soubesse, me deu sustentação para que eu me aprumasse no mundo, encontrasse referências e tivesse, como nunca tinha tido antes, amigas para qualquer momento, pau para toda obra mesmo. Foi bom sentir-me querido e ter quem me ouvisse, quem de fato fizesse parte do meu mundo.

2. "Livin' on a prayer", do Bon Jovi: trouxe-me à memória as irmãs Fátima e Conceição Faustino, duas professoras de Física com quem trabalhei no início dos anos 1990 e que são, em quase tudo, muito diferentes de mim. Com elas, aprendi que o diferente não significa, necessariamente, algo de que eu tenha de me afastar; ao contrário, pode fazer que eu cresça e amplie meus pontos de vista.

3. "Let's hear it from the boy": Deniece Williams, da trilha de Footloose. Esta é do Mauro aos 11, 12 anos, em meados dos anos 1980. O menino da Vila Maria, inexplicavelmente diferente dos outros com quem convivia, deslocado e que queria, desesperadamente, estudar inglês para saber o que as letras de música escondiam de mim.

4. "Toy Soldiers", Martika: esta trouxe de volta o Mauro do final da década de 1980, quando comecei a trabalhar, ganhar meu próprio sustento e, ainda, ter de estudar e ajudar em casa. A música é bem "pop anos 80", mas tenho por ela um carinho especial, somente por causa da saudade inexplicável que me desperta; inexplicável porque, de fato, não foi uma época fácil na minha vida (como nenhuma delas, mas esta foi bem mais complicada...)

5. "Rock me Amadeus", Falco: aqui, o que me veio à cabeça foi a infância, no final dos anos 1970, começo dos 80. Tempos bicudos, mais uma vez. Lembro-me, especificamente, de uma vez em que eu, o sobrinho pobre, fui levado para a praia, pela Tia Terezinha, a tia rica. Naquele momento, foi só alegria, sem a mais remota noção do que representava então ser o filho do caminhoneiro, marginalizado em sua própria família, coisa da qual só vim ter noção muito tempo depois.

6. "The House of The Rising Sun", The Animals: 1991 é a data aqui. Meu primeiro semestre de aulas no curso de Letras do Mackenzie, uma conquista enorme, um esforço sobre-humano, mas um prazer imenso de, finalmente, poder fazer escolhas a respeito do meu caminho. Levantar às 5h00 e ouvir, na Alpha FM, o antigo "Varig e você juntos na noite" tornou-se um ritual de todas as manhãs e deu-me ânimo para seguir lutando. Disso, tenho mesmo muita saudade.

7. "I got you babe", Cher and Sonny Bono: também deslocada de seu tempo, essa me traz a chegada da MTV no Brasil, muito por causa de um clip do início dos anos 1990, em que a Cher cantava a música contracenando com Beavis and Butthead, os avós do South Park, desenho desbocado e provocativo. Minhas irmãs e eu tínhamos na MTV daquele tempo uma das poucas possibilidades de diversão - esperar os programas certos para assistir aos clips preferidos, coisa de adolescente mesmo, em contraste com uma vida que, ao menos para mim, já não era adolescente havia algum tempo.

8. "With a little help from my friends", na versão de Joe Cocker: era o tema de abertura de "Anos Incríveis", minissérie que passava na TV Cultura e que marcou toda uma geração de jovens dos anos 1990. Confesso que a série era bem legal, mas do que eu gostava mesmo era da abertura, por causa da música...

9. "Disarm", The Smashing Pumpkins: outra das heranças da MTV. Lembro-me do clip e, até hoje, é uma das minhas músicas favoritas. Esta me leva direto para a segunda metade dos anos 1990, quando a vida começou a mudar: era professor de cursinho, ganhei dinheiro, comprei meu primeiro carro e fiz muitos amigos que carrego comigo até hoje.

10. "7 Seconds" - Youssoun N"Dour e Neneh Cherry: anos 2000, professor da Escola Graduada, ouvinte da Eldorado FM e muito, muito distante do adolescente encapsulado que fui. Penso que esta música me dê saudade exatamente porque representou um momento da minha vida em que as coisas, de fato, começaram a tomar o caminho que, havia muito, eu tinha planejado para mim. Conquistei um ótimo emprego, na minha área, ganhei um grande amor que me acompanha até hoje, firmou-se em mim o adulto que sou.

11. "Ring ring", ABBA. Eu e minha irmã, passeando de carro pela cidade e fazendo uma coreografia bem besta. Nada demais, mas a alegria de dar risada espontaneamente, sem motivos, torna a vida mais leve, muito mais saborosa.

11. "In my life", The Beatles: conheci, em 1995, uma das pessoas que mais me ajudaram a construir o projeto de vida que me faz feliz até hoje, a Sirlene, minha primeira coordenadora no cursinho em que dei meus primeiros passos como professor "de verdade", e que me ensinou, e me ensina, muito, mas muito mesmo. Foi ela quem me apresentou a música, que me desperta sentimentos muito bons. A letra é fofinha, e a gente precisa de dias fofos na vida. Quem não?

12. "Chance de Aladim", Ney Matogrosso. Foi com o CD "Olhos de farol", no qual esta música foi lançada, que caí de paixões pelo Ney. Encantamento puro.

13. "Tigresa", Caetano Veloso. Outra dos primeiros tempos de faculdade. Também deslocada de seu tempo, ouvi e me apaixonei de primeira. 

14. "Cantilena, das Bachianas Brasileiras no. 5", Heitor Villa-Lobos, na voz de Bidu Sayão. Linda, lindíssima. Traz-me lágrimas aos olhos, especialmente por pensar que muito pouca gente conhece Bidu Sayão, uma cantora lírica que dá orgulho de ter sido brasileira.

15. "Zero", Liniker e os Caramelows. Confesso que não sou muito afeito a esta nova geração da música brasileira. Mas esta música foi tema de abertura de uma série do GNT, "Liberdade de gênero", e me fisgou de primeira.

16. "Bittersweet symphony", The Verve. Esta me leva para o conturbadíssimo ano de 1998. Poucas vezes na vida trabalhei tanto quanto naquele ano (eram mais de 60 aulas por semana), escrevi um livro em parceria com o Charles, tentei voltar para a faculdade (quem me conhece sabe da novela que foi minha graduação em Letras) e, para completar, perdi meu pai e o chão se abriu debaixo dos meus pés... Honestamente, não tenho saudade desse ano, não (como também não tenho, e acho que não terei nunca, saudade de 2015, ano muito difícil...)

Na pior das hipóteses, meus cinco leitores têm aí uma seleção para passar uns minutos ouvindo boa música (boa, ao menos para mim). 

E eu, mais uma vez, dei-me de presente o exercício de passear pela minha vida, ver o quanto já fui capaz de construir e superar, colocar em perspectiva muitas coisas e, de quebra, tentar entender um pouco melhor quem sou e por que sou...



Escrito por Mauro Dunder às 02h20
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HOMENAGEM A MÁRIO DE ANDRADE OU "BANDEIRANTES GENS MEA"

Homenagem a Mário de Andrade ou Bandeirantes gens mea

Sou bandeirante.
Trago na alma o sangue
Da luta cruel
E da lua de fel
Que um dia feriu
Nosso solo para sempre.

Sou bandeirante.
Nascido e criado
Na selva de pedra
Na seiva de pedra
No pó e na fuligem.

Contaminado ao nascer,
Choro por dentro
Por não saber ser outra coisa.
Sou bandeirante
Macabro arremedo de conquistadores
Piratas de elite
E seus palacetes
Que exalam o aroma
Do café e do medo.

Ser bandeirante é sina e regalo
Com gosto agridoce
De lágrima e glória.

Desbravo agora
Minhas próprias terras
Florestas fechadas
De orgulho e terror.
Sou bandeirante, 
Fantasmas me assombram,
Medos me movem,
Lutas me chamam,
Mas sem a coragem
Daqueles de quem
Herdei essa marca.
Sou bandeirante
Sem salvação.



Escrito por Mauro Dunder às 20h58
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VEM, METEORO!

Leio, entre incrédulo e estarrecido, que Temer, o Pequeno (não sei quem cunhou a expressão, mas achei tão apropriada que decidi usar), vai indicar Alexandre de Moraes para ocupar, no Supremo Tribunal Federal, a vaga aberta pela morte de Teori Zavascki. Obviamente, não está em discussão a prerrogativa legal de o Presidente da República indicar nomes que considere adequados para a mais alta corte do Judiciário brasileiro. Entretanto, é preciso ponderar algumas coisas a respeito desta indicação.

Uma passada de olhos pela lista dos indicados ao Supremo, minimamente desde João Figueiredo, aponta para nomeações de caráter político, mas que contavam com algum respaldo na carreira profissional ou acadêmica dos indicados. De João Figueiredo, herdamos Francisco Resek, reconhecidamente um brilhante jurista, tanto no meio da advocacia, quanto no meio acadêmico. De Sarney, veio Celso de Mello, o hoje Decano do STF, também um nome de respeito acadêmico e profissional. Do governo FHC, veio Ellen Gracie, a primeira mulher a ocupar uma cadeira na Suprema Corte brasileira. Lula nomeou Cármen Lúcia, Joaquim Barbosa e Eros Grau, todos nomes reconhecidamente competentes e de carreiras jurídicas irrepreensíveis (e é preciso lembrar que, no julgamento do Mensalão, Barbosa não temeu ir contra os possíveis interesses políticos daquele que o indicou). Dilma deu ao STF, além de Luiz Fux, de grande carreira acadêmica, Teori Zavascki, que, antes mesmo de morrer era reconhecido por sua grande capacidade técnica e seu espírito equilibrado, que buscava sempre a imparcialidade ao tratar de um caso.

Seria ingenuidade deste escrevinhador partir do pressuposto de que essas e outras indicações, desses e de outros Presidentes, não tiveram um caráter político, por vezes partidário mesmo. Mas, de uma maneira ou de outra, guardavam algum cuidado com o aspecto puramente jurídico dos indicados. Não me parece o caso de Alexandre de Moraes.

Apenas para ficar em duas questões espinhosas:

1. Pairam sobre ele o espectro de ter sido "advogado do PCC" e a sombra de um comportamento truculento, de palavras e ações desmedidas e descompensadas. Um Ministro do Supremo não pode se basear em bravatas e ameaças (haja vista o burburinho recente que vem causando o comportamento de Gilmar Mendes, herança tucana de FHC). Muito menos, pode carregar sobre os ombros a pecha de advogar para uma organização crimimosa - para o cargo em questão, apenas a possibilidade de que isso possa mesmo haver acontecido já deveria ser impeditiva.

2. Enquanto o mundo todo discute a discriminalização da maconha, olhando de frente para seus benefícios e malefícios, Moraes veste a capa conservadora e diz que pretende acabar com a maconha na América Latina. Veja bem, meu caro leitor: não é no Brasil, não é em São Paulo. É na América Latina. Sem contar a megalomania da ambição do talvez-futuro Ministro do Supremo, isso implicaria questões diplomáticas sérias com nossos vizinhos, embates que, neste momento, não trariam nenhum benefício ao nosso país. Além disso, a simples recusa a discutir o assunto, que tanta admiração provoca naqueles que veem na maconha o mal de todos os males, demonstra um autoritarismo e uma disposição para fazer valer a própria vontade, que não cabem a quem vai decidir sobre questões que nos afetam a todos, em alguma medida.

Diga-se, em defesa de Alexandre de Moraes, que possui vida acadêmica ativa, tendo sido professor da USP e do Mackenzie antes de assumir os últimos cargos públicos que exerceu, além de ter publicado livros, capítulos de livros e artigos em jornais e revistas (a maior parte não-acadêmicos) da área (http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4771215A7).

Neste momento, penso no outro nome forte cogitado também por Temer, o Pequeno. Ives Gandra, aquele que defende o papel submisso da mulher perante o marido. Diga-se, também a favor de Gandra, que sua carreira acadêmica é sólida e consistente. É um ultraconservador que, ao menos, defende seus pontos de vista com embasamento legal forte.

Aí, lembro-me de Trump e de sua indicação para a Suprema Corte norte-americana. Conservadorismo puro.

Longe de mim pensar que os Supremos Tribunais sejam instituições arejadas e progressistas por excelência. Sua própria coleção de rituais já dá um sinal do bolor conservador que está na sua essência. No caso brasileiro, uma essência que data dos tempos do Império. Mas daí a nomear ministro um homem conhecido por seu flerte com a tortura e por bravatas típicas de quem joga para a plateia pode ser um movimento muito perigoso no tabuleiro do jogo político, tal como ele se configura mundialmente agora.

Honestamente, acho que o meteoro do dia 16 virá em boa hora... Vem, meteoro!



Escrito por Mauro Dunder às 15h56
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GELEIA GERAL

O mundo anda muito complicado para quem, como eu, não consegue manter a constância na publicação dos textos de um blog. Muitas coisas acontecendo, algumas de relevância global, outras de impacto local. Mas numa coisa elas têm muito em comum: aquela sensação de que o mundo está de ponta cabeça e alguém esqueceu-se de avisar os passageiros. Senão, vejamos:

1. Quando passei por aqui pela última vez, Donald Trump era candidato à Presidência dos Estados Unidos. Era um candidato improvável, falastrão e sem nenhum tato político. Uma espécie de Sílvio Santos americano, cujo poder econômico havia sido, diferentemente do nosso Sílvio, capaz de estabelecer uma candidatura legalmente válida. Mas era quase uma piada e poucos atreviam-se a apostar suas fichas na vitória dele. Pois hoje ele é o Presidente da República por aquelas bandas e vem governando de um modo que nos arrepia os pelinhos da nuca. Meio Jânio Quadros (em vez dos famosos bilhetes, governa via Twitter), meio Mussolini (decreta coisas a despeito de sua legalidade ou legitimidade) e, perigosamente, porta-voz de uma guinada à direita no mundo inteiro. E com essa guinada, um cenário assustador vem sendo construído, especialmente para aqueles que mais precisam de esperança - refugiados e imigrantes, legais ou não.

2. A Inglaterra havia acabado de optar por sua saída do Mercado Comum Europeu. O Brexit havia sido decidido em plebiscito por uma Inglaterra que, ao fim e ao cabo, assustou-se com sua própria escolha. Mil teorias foram elaboradas para explicar o resultado do plebiscito: os mais jovens não se interessaram pelo assunto, nascidos que foram já em uma Europa mais integrada, e que sequer tinham noção do que a saída do Bloco representaria, e, com isso, os mais velhos, saudosistas de um nacionalismo anti-globalização, teriam sido a maioria dos eleitores. Além da própria guinada à direita, da qual Trump e Theresa May são símbolos representativos.

3. Portugal ainda não havia sido o campeão improvável da Eurocopa, e a chegada da seleção lusitana à final não passava de uma tênue possibilidade. Pois deixou de ser apenas isso e aconteceu.

4. Dilma Rousseff ainda era apenas Presidente da República afastada temporariamente para julgamento, pelo Senado, do processo de impeachment iniciado por Eduardo Cunha - preso pouco depois. Muito se esperneou, contra e a favor, e o impeachment foi aprovado por 61 votos, dentre os 81 senadores (coincidentemente (?), o mesmo número de votos que Eunício Oliveira teve esta semana para ser o novo presidente do Senado). Pois bem: o PT saiu do poder, mas a corrupção não acabou e, ao contrário, o número de figuras do primeiro escalão do governo golpista cujos nomes têm aparecido em delações, ou especulações sobre elas, só faz aumentar. E ainda há quem insista em dizer que foi o PT quem institucionalizou a corrupção no governo brasileiro, numa prova cabal que, das aulas de História do Brasil que tiveram na Educação Básica, ficou só o fato de que Pedro Álvares Cabral chegou aqui em 1500 - mas nem de longe passa por algumas cabeças que esse teria sido o início das relações promíscuas entre poder e capital no Brasil.

5. Teori Zavascki estava vivo, era Ministro do Supremo Tribunal Federal e relator do processo da Operação Lava Jato. Morreu em um acidente aéreo, que suscitou mil, duzentas e quatorze teorias da conspiração, e deixou a vaga em aberto, conturbando um pouco mais o já complexo cenário desta operação de gosto duvidoso e interesses nem sempre tão explícitos.

De todo este cenário, muitas coisas têm trazido à minha cabeça - oca, como os três leitores deste blog já estão cansados de saber - algumas reflexões incômodas.

Erramos, como humanidade, e erramos muito feio.

A onda avassaladora de conservadorismo, tanto dentro, quanto fora do país, tem oferecido cenas de absoluto terror, as quais têm um fundo comum: nossa total incapacidade para o exercício da empatia. Trump não se importa com nada, nem ninguém, que não seja sua própria vaidade. Isso talvez não dissesse respeito a mais ninguém, além de si mesmo e de sua Melania, caso ele não fosse Presidente do maior país capitalista do globo, dono de um poderio militar que nos poderia liquidar, a todos, em minutos. Sem contar todo o terror de refugiados políticos e imigrantes que, por escolha ou falta dela, recorreram aos Estados Unidos, na esperança de uma vida melhor. Mas humanos não importam, quando o nacionalismo é a palavra de ordem.

O mesmo, em escala talvez maior a esta altura, vem acontecendo há tempos na Europa. Constroem-se cercas e muros, na tentativa equivocada de defender "a nação", deixando de lado todo o aspecto humano da história. É gente, muito mais do que um governo, que tem suas vidas em jogo nisso tudo, e nada parece sensibilizar ninguém.

Por nossos lados, os últimos dias deram à luz cenas tão chocantes quanto, no tocante à falta de empatia. Lula, o Demônio que escolheu o Brasil para encarnar e atormentar, perde sua Marisa Letícia e é obrigado, ainda, a lidar com a crueldade de pessoas que, em vez de, minimamente, silenciar perante a perda do ex-presidente, comemora a morte da ex-primeira dama, em uma espécie de espírito vingativo tão deprimente quanto adolescente. Só faltou (pelo menos que eu tenha lido e visto) a prosaica frase "bem feito, aqui se faz, aqui se paga". Não adiantou nem Fernando Henrique Cardoso dar o exemplo de espírito de solidariedade, indo prestar a Lula as mesmas condolências que havia dele recebido em 2008, quando da morte de Dona Ruth Cardoso. A própria paladina do impeachment, a burlesca Janaína Paschoal, destilou seu veneno, perguntando em seu Twitter o que achavam os petistas do "chamego" entre Lula e Temer, referindo-se à presença do presidente golpista ao velório de Dona Marisa, em mera prestação de solidariedade protocolar, mas solidariedade, afinal.

A pergunta que não quer calar, especialmente no caso do Brasil, é a seguinte: quando perceberemos que não há "eles" e "nós", e que estamos todos sujeitos às mesmas consequências de atos desastrosos, seja quem for o governante de plantão? A resposta, temo, seja desconsoladora: enquanto não tivermos a noção precisa do que significa este "nós", vamos sempre procurar por "eles", para culpar do que quer que seja.

Dizem que daqui a 12 dias vem um meteoro devastador por aí. Minha esperança é a de que ele seja certeiro, e que, daqui a milhares de anos, os dinossauros tenham a chance de recomeçar isto aqui, porque nós, espécie mais evoluída, já erramos em tudo. A meu ver, erramos a um ponto sem retorno. Vem, meteoro. Mas não nos deixe aleijados. Mate-nos a todos, para que o planeta tenha alguma chance de se regenerar.

P.S.: Tenho muito dó de morrer, queria ficar por aqui mais umas décadas (até porque, é questão de honra, quero que o governo me pague aposentadoria por mais de 20 anos, pelo menos).



Escrito por Mauro Dunder às 22h27
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NEM SEMPRE QUEM PARIU MATEUS É QUEM O EMBALA

Há um certo consenso, na sabedoria popular, em torno da ideia de que as consequências de uma atitude devem ser enfrentadas por quem as decide tomar. Esse é, afinal, um dos pressupostos do exercício de liberdade - privilégio pelo qual muitas pessoas, ao longo da história da humanidade, lutaram até a morte, não raras vezes.

Um exemplo clássico desse princípio está no consumo de substâncias prejudiciais à saúde. Não há fumante neste mundo que não conheça, hoje em dia, toda a lista de malefícios que o cigarro causa ao organismo. Se eu decido não parar de fumar (enquanto essa liberdade me é concedida), cabe a mim arcar com os prejuízos que a minha saúde, em breve, deve começar a sofrer. É claro que há quem possa, com toda a propriedade, argumentar, inclusive, que as consequências dessa minha ação não são apenas minhas, na medida em que o sistema público de saúde vai pagar parte da conta com meus possíveis tratamentos, internações, afastamentos do trabalho e outras coisas; no entanto, tal discussão fica para um próximo texto. Falava eu da relação entre ação e consequência, e, principalmente, do arcar com o que acontece a partir de um ato.

Essa relação causa-efeito, assim, seca, parece muito lógica - e é, em certa medida, quando diz respeito a questões de foro puramente íntimo. Bem diferente do que acontece quando a atitude em questão afeta diretamente uma coletividade qualquer. Fumar na minha casa é problema meu; fumar em um ambiente fechado incomoda diretamente quem não fuma e, por princípio, a decisão de acender um cigarro ou não deixa de ser "problema meu". Torna-se questão de bom senso, de senso de coletividade e, em grande medida, de uma noção clara sobre o alcance de uma decisão que, embora tomada em foro íntimo, deixa de dizer respeito apenas a quem a toma.

Parece que esta simples constatação - uma atitude que tenha alcance coletivo deve ser tomada com a noção mais clara possível de seu alcance para a coletividade - anda bem em falta nestes nossos tempos. E essa falta tem se manifestado nas mais diversas esferas, desde a vida cotidiana até as grandes questões nacionais e internacionais. Temos visto, cada vez mais, a cultura da individualidade tornar-se a cultura do individualismo, na qual um "eu" dono e senhor absoluto de si mesmo não consegue enxergar, como dizia minha avó Izaura, um palmo diante do nariz.

Nesse balaio de gato, cabem o furar a fila no ponto de ônibus, porque eu estou com pressa e o resto que se dane; o segurar a porta do metrô para eu entrar, porque não quero esperar um minuto e meio pelo próximo trem e não estou nem aí se isso vai causar atraso em toda o sistema; o andar pela rua digitando no celular e ficar irritado se trombo com alguém ("não olha por onde anda, não?"); o querer que o pedido no restaurante seja tratado como se fosse especial e passe na frente de muitos outros, porque estou com fome e com pressa.

Mas cabe mais: cabe o não aceitar nada que seja diferente do que eu ache que eu seja; o não aceitar aquilo que eu não consigo compreender; o não pensar em mais ninguém quando assumo uma posição sobre uma questão coletiva. E ainda cabe mais: cabe o votar em alguém, não em um projeto de cidade, de estado, ou de país (ok, dou a mão à palmatória: o sistema político brasileiro é personalista, como já o anunciava Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil).

O pior, entretanto, vem quando não somos capazes de enxergar além de nossos próprios umbigos e defendemos, histericamente, uma luta que tomamos para nós, sem nem procurar saber se ela é mesmo nossa. É pior por uma razão: soma-se ao individualismo uma recusa sistemática por tentar compreender o fenômeno de modo mais amplo. Cada galo que canta transforma-se em um Messias enunciador da verdade, colocando em lados opostos pessoas que, ao fim e ao cabo, deveriam lutar do mesmo lado, porque, no fundo, vivem as mesmas coisas.

Na frágil democracia em que vivemos, de instituições viciadas e apodrecidas, a figura de um "salvador da pátria" ainda seduz muito. E muitos. Desde sempre procuramos culpados, raramente buscamos soluções. Nesse jogo constante, o risco de sermos manipulados a enxergar o que querem que enxerguemos é imenso e coloca em risco um processo que, no caso do Brasil, é bastante raro e recente - uma conta básica demonstra que, de nossos 516 anos de história, vivemos menos de 10 por cento em exercício de livre democracia.

Dilma Rousseff é incompetente. Não tem traquejo político, não sabe lidar com a pressão do jogo do poder, não se revelou a administradora cuja imagem seduziu muitos, tanto em 2010, quanto em 2014. Some-se a isso uma crise econômica mundial, fruto, em grande medida, do desgaste de um sistema econômico para o qual, assumamos, ainda não encontramos alternativa e que, nas mãos combalidas da incompetente Dilma, resultaram em um dos piores momentos da história econômica recente do Brasil. Fato.

Só que não há argumento que me convença a não dizer que seu afastamento foi um golpe. Não era a candidata dos poderosos; não era a candidata de uma classe média que, apesar de estar mais próxima do andar de baixo, acredita piamente que pertence ao andar de cima; e aí, se não é minha candidata, tem mais é que sair mesmo. Ainda precisamos aprender que, no jogo democrático, a incompetência resolve-se nas urnas. 54 milhões de pessoas votaram em Dilma Rousseff. Isso configurou maioria de votos e legitimou-a para mais quatro anos de exercício de mandato com os quais teremos todos de arcar, tendo ou não votado nela, porque é assim que uma democracia funciona - mesmo que ainda não tenhamos aprendido que um voto gera consequências para 200 milhões de pessoas.

É inegável que toda essa movimentação sociopolítica - protestos verde-amarelos, bateções de panela - catalisa o saco cheio do povo brasileiro. Estamos fartos de sermos descaradamente roubados, de sermos humilhados cotidianamente por uma desigualdade de direitos e deveres gigantesca. Fartos, realmente fartos. Só que, em um momento como esse, tratar sintoma como causa pode deixar a doença ainda mais forte e mortal.

Essa queda de braço já nos está levando, a todos, ao mesmo fundo de poço. E aí,  tenhamos ou não parido Mateus, teremos de o embalar.



Escrito por Mauro Dunder às 02h11
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PERTINÊNCIAS IMPERTINENTES

Em pleno tiroteio eleitoral, com direito a episódios dramáticos (queiram ou não, a morte de Eduardo Campos tornou-se o nó górdio deste enredo quase trágico), as manifestações das pessoas continuam a me surpreender. Da figura novelesca de Marina Silva (quem não assistiu a "O Salvador da Pátria" talvez não lembre, mas Sassá Mutema também teve vendida a imagem de herói do momento) à luta entre Dilma Rousseff e Aécio Neves, a eleição brasileira mostra muito mais do que tendências políticas. Muito do que somos há 515 anos vem à tona quando esses ânimos todos fundem-se em uma trama rocambolesca. Senão, vejamos:

1. Marina Silva vê-se em saia justa quando tem de defender, como candidata, a igualdade de gênero que a Constituição Federal garante - e que a evangélica pode não aprovar. O que poderia ser uma oportunidade para discutirmos não só esse assunto, mas, principalmente, o que significa ser um Estado laico, em que dogmas e práticas religiosas não interferem na administração pública em todos os seus níveis, transforma-se rapidamente em um exercício de poder. E a saia, já justa, aperta-se ainda mais: a comunidade evangélica demonstra alguma reação, a fiel passa à frente da administradora e, pronto: como desdizer o que se disse - e, mais, deveria mesmo ter sido dito?

2. Aécio Neves parece que sumiu do mapa. Ou, melhor dizendo, o mapa parece ter decidido tirá-lo de cena. A Veja, a Istoé, a Época, a Carta Capital, todo mundo parece ter escolhido, em meu, em seu nome, a próxima Presidência da República: Marina, Marina, Marina - seja a salvadora, a esfinge que ameaça devorar, o fenômeno que virará a eleição. O discurso que Aécio tenta fazer ecoar, de que não vai acabar com o Bolsa Família, nem com nenhum outro programa de distribuição de renda, não convence, não cola e, em grande medida, parece desnecessário. Como se ele estivesse dizendo o óbvio. Tenta outro caminho e anuncia, em tom de quase desespero, que, se eleito, nomeará Armínio Fraga para o Ministério da Fazenda. O máximo que isso fez foi garantir a Aécio os votos da classe média e da classe alta - que, via de regra, não votaria nem em Dilma, nem em Marina. Desperdício de munição.

3. Dilma Rousseff faz campanha diretamente de Brasília - seja pela circunstância de ser a Presidenta em exercício e, por isso, não se poder distanciar dos compromissos oficiais, seja por conveniência política. Mas também parece que está chovendo no molhado, com ladainha de disco quebrado: vamos fazer, vamos manter, vamos ampliar, deem-me mais quatro anos e eu posso tentar me livrar do Lula e de sua sombra. A imagem de coração valente, convenhamos, é muito melhor do que a voz de Aécio dizendo, em sua campanha, que uma "inabalável fé em Deus" é uma das qualidades com que pretende governar o Brasil, tentando, visivelmente, tascar alguns dos votos de Marina Silva.

4. Neste imbróglio, surge ainda o Pastor Everaldo, bradando a quem quiser ouvir que é o candidato do estado mínimo, que vai privatizar até o "imprivatizável". Será que ele ouviu o Raul Seixas cantar que "A solução é alugar o Brasil", muitos anos atrás? Acho que não. Se tivesse ouvido, saberia que a ideia não é novidade. Foi digna de pena a cara de pavor do candidato, no debate da Bandeirantes, ao ouvir a pergunta de Dilma sobre a questão da matriz energética do Brasil. Foi algo como "ninguém me disse que eu teria de saber falar disso. Não era só dizer que a privatização é o caminho?".

Não surpreende que uma candidata que declara ter "um projeto de país, não um projeto de poder" encante tanta gente. Só não sabemos ainda se é canto de sereia. E, nesse sentido, a mídia só tem posto megafones na boca dessa nereida. Enquanto a cortina de fumaça não se desfaz, algumas perguntas não querem calar:

1. Quem vai discutir, a sério, diretrizes sérias para a educação no país? Tenho visto, mais e mais, gerações de jovens cheios de potencial, mas a quem foi negado acesso a um mundo de conhecimento e de habilidades. Quando vou, como professor universitário, que forma futuros professores, receber alunos que tenham tido uma formação intelectual, um exercício de pensamento compatível com sua energia e sua paixão?

2. Quem vai propor ações reais, factíveis e eficazes para que um brasileiro possa ter hospital, médico e exames realizados com respeito?

3. Quem vai dizer as verdades, ainda que antipáticas, a respeito da nossa economia injusta?

Sigo acreditando no voto como a minha parcela de contribuição para tentar mudar essa história toda. Entretanto, o problema é mais sério e não cabe em nenhuma pergunta: o mesmo individualismo que caracteriza as mais banais atitudes do cotidiano mostra sua cara em todas as esferas da vida pública brasileira. E esse "cada um por si" não vai ser destruído por decreto presidencial.



Escrito por Mauro Dunder às 21h25
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DO QUE APRENDER COM OS HERMANOS

Nada como ser desatento.

Ao contratar uma viagem de férias, decidimos por Buenos Aires. Destino romântico, com muitas coisas legais para fazer, especialmente no inverno.

O que não percebemos foi que, durante nossa viagem, haveria a final da Copa do Mundo - se a Argentina fizesse a final contra o Brasil, imagine só: se correr, o bicho pega; se ficar, o bicho come.

Não fez. Foi contra a Alemanha a final.

De qualquer maneira, a estada portenha ofereceu a oportunidade de perceber algumas coisas - e refletir sobre elas - sobre a relação entre Argentina e Brasil, especialmente no que diz respeito ao cotidiano, à existência de todos os dias.

A lista é aleatória, claro, como todas as listas. Mas, quero crer, serve para pensar em algumas coisas.

1. Os carros param nas faixas de pedestres, mesmo quando o farol está aberto para eles. Não sei se é lei, se há multa, fiscalização, ou se é hábito mesmo, mas os motoristas de Buenos Aires parecem um pouco mais civilizados do que os nossos (São Paulo é a referência para "nossos", bem entendido).

2. A cidade está mal tratada, meio feia e suja. Há paredes pichadas, mas os monumentos e prédios históricos estão a salvo. Uma visão levemente distorcida, já que a história está em constante construção; entretanto, esse senso de preservação parece-me muito maior do que o que temos aqui.

3. Nas ruas do centro de Buenos Aires, famílias inteiras (pai, mãe, dois filhos) caminham pela calçada em uma noite de férias. Noite mesmo, tipo meia-noite e meia. A cidade movimentada tem espaço para todos.

4. Na ópera, uma mistura de públicos impressionante. Mulheres de vestido longo e homens de sobretudo convivendo com adolescentes de jeans, camiseta e casaquinho. Todo mundo interessado na ópera, não nas pessoas que as cercavam.

5. Protestos e celebrações abertos para quem quiser. Parece que os argentinos já aprenderam que há hora e razão para protestar e para comemorar. E que participar de uma não exclui participar da outra. Em cinco dias, vimos protestos contra as demissões executadas pelas grandes empresas, manifestações em defesa da causa palestina, contra a política do prefeito de Buenos Aires e a comemoração do vice-campeonato mundial de futebol. Sem crises de identidade.

Não. A Argentina não é o paraíso na Terra e eu não quero mudar para lá. Somos melhores do que os vizinhos em muitas coisas. Ouvi de um taxista, por exemplo, que o grande erro da política econômica do governo Kirchner foi ter-se alinhado à Venezuela, e não ao Brasil, que seria seu parceiro mais "natural", para que estivesse em melhores condições. Nossos últimos governos (FHC incluído), de uma maneira ou de outra, têm feito alguma coisa para começar um longo processo de transformação, retirando milhares de famílias da miséria absoluta. Temos uma natureza estonteante e a Copa do Mundo aconteceu, seja porque a FIFA quis, porque a Dilma comprou, porque ela vendeu. Demos um show de simpatia e cordialidade, deixamos impressionados os povos que aqui vieram - como, diga-se de passagem, era de se esperar. Não troco a cocada do tabuleiro da baiana pelo alfajor. Mas acho que precisamos aprender muita coisa, com muita gente. Só isso.



Escrito por Mauro Dunder às 12h46
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QUEM CONTA UM CONTO NEM SEMPRE AUMENTA UM PONTO

Acabo de voltar do cinema, onde me rendi aos encantos da Disney e fui assistir a Malévola.

À parte a atuação da Angelina Jolie (deixo essa para os comentaristas especializados) e o fato de ser um filme criado para ensinar uma moral (a da Disney, claro), não consegui sair inerte da sala de projeção. Martela minha cabeça a ideia de que, por mais óbvio que seja isto, um ponto de vista muda tudo. E não só nas narrativas da Disney.

Subi a Angélica pensando que, na vida fora da magia das telas, o mesmo acontece, sem que nos demos conta disso. De simples mal-entendidos a intolerâncias assassinas, a falta de consciência do ponto de vista alheio é fonte de muitos problemas. É a busca do "certo", do "justo", do "normal", em que fomos ensinados a crer, tomando forma e corpo, muitas vezes desfigurados pela sua própria natureza.

Pegue algumas das grandes questões da humanidade, especialmente as que envolvem intolerâncias - contra pobres, contra negros, contra mulheres, contra gays, contra judeus, contra evangélicos. Sempre "contra". Nunca "ao lado de", ou "em acordo com", de modo que uma vítima de intolerância hoje tem grande potencial de ser o intolerante de amanhã, sem sequer dar por isso. Senão, vejamos:

Cena 1: Uma mulher anda pela Paulista, quando ouve uma cantada menos-que-barata, chinfrim, agressiva mesmo. Ofende-se, com todo o direito. Cinco minutos depois, olha com desprezo, com nojo, na verdade, para o morador de rua, o qual, até que me provem o contrário, pertence à mesma espécie que todos nós.

Cena 2: Um negro é ofendido por seu chefe, branco. Sente-se ferido em seus brios e condena, em alto e bom som, a intolerância do chefe. Mais tarde, em casa, chama de "pouca vergonha" um casal de homens que troca olhares carinhosos na novela. Lembra-se imediatamente de ter visto, na rua, dois homens andando de mãos dadas e de tê-los "posto em seu lugar", chamando-os de viados descarados (aqui, sem aspas).

Cena 3: Um homem anda pela rua e tropeça em um mendigo, com quem "o governo devia fazer alguma coisa". Pouco tempo depois, entra na Igreja (ou no terreiro, ou na mesquita, ou no templo, ou na sinagoga, onde queiram) e ora pela paz entre os homens e por um mundo mais justo.

Alguém discorda de que essas cenas todas são muito possíveis?

Hipocrisia? Acho pouco, não explica. Todas as personagens aí em cima, se questionadas sobre suas ações, terão "uma razão" com que justificá-las. E aí é que reside o problema. 

Ter uma razão implica desprezar outras, em especial as que os outros podem apresentar. E tudo fica ainda pior quando, a título de um "debate", um lado da conversa acha que tem o dever de convencer o outro, persuadi-lo a mudar de ponto de vista (o que, se acontecer de forma natural, não significa nenhuma incoerência). Não basta ter "a razão"; é preciso que ela seja, também, a razão de todos os outros.

 

 



Escrito por Mauro Dunder às 02h05
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SOBRE A COPA E AS CAPAS

E não é que a tal "Copa das Copas" está acontecendo?

Andando pela cidade nos últimos dias, tenho visto cenas de dar orgulho - turistas andando com relativa tranquilidade pela Paulista, pegando metrô, sendo saudados e ajudados pelos brasileiros. Isso era a parte previsível. Como escrevi em uma rede social dia destes, somos nós sendo quem somos (o traço hospitaleiro do caráter brasileiro já virou clichê, mas, como quase todos os clichês, tem fundamento na realidade).

O que me chama atenção não é a Copa, mas as capas que ela anda levantando sobre nós mesmos e sobre outros lados - muitos, menos simpáticos - do que somos como povo. Sem falar no descompasso entre o que vejo nas ruas e o que mostra a imprensa. 

Tenho visto, sim, manifestações anti e pró várias causas: anti-copa, pró-moradia, anti-PT, anti-PSDB, pró-cotas na moradia estudantil. E com elas, uma animosidade que não combina com o que sempre nos fizeram crer que éramos. O povo cordato parece ter se cansado de sua condição, mas não sabe direito como agir para firmar posição. Sempre digo a quem pede minha opinião sobre as manifestações que têm tomado corpo no Brasil: esta é uma das coisas que se aprendem fazendo - passamos séculos de cabeça baixa; mais recentemente, foi-nos imposto silêncio, sob pena de perder a vida; por isso, estamos aprendendo a dizer o que queremos e o que não queremos, do que precisamos, de fato.

Não cabe mais discutir se queremos ou não a Copa do Mundo, ou se queremos hospitais e escolas no "Padrão FIFA" (aliás, estou começando a achar que quero hospitais e escolas no padrão "do tamanho das nossas necessidades", o qual, certamente, a FIFA desconhece e, se conhece, despreza). Entretanto, não podemos deixar de ponderar sobre a salada russa que isso tem se tornado. Estamos colocando elementos muito díspares na mesma cesta. Por um lado, isso é sinal de que séculos de desmazelo provocaram perdas em muitos campos da vida social brasileira - é sinal de saco cheio com tudo, e isso pode ser um perigo, já que "salvadores da pátria" são uma enorme tentação em uma situação como essa. Por outro, uma nova capa se levanta, para mostrar um lado pouco conhecido de nós mesmos: somos capazes de odiar - com ou sem razão - tudo aquilo que nos pareça responsável pela nossa desgraça. Da vizinha que faz barulho à Presidenta da República, todo mundo pode ser alvo desse sentimento tão longamente reprimido. E aí, meus amigos, como diria Stanislau Ponte Preta, "é fogo na jacutinga".

Odiar é parte da natureza humana. Ponto. Se é deplorável, se leva ao inferno, se não devemos sentir, é outra conversa. Mas que é inerente à condição de sentir, não há como contestar. O problema, neste momento, é nossa condição "adolescente". Não amadurecemos muito nos últimos 514 anos e tendemos a reagir impulsiva e intensamente ao que descobrimos que nos incomoda. Como professor de adolescentes pelos últimos 22 anos, acho que posso dizer o seguinte: um adolescente não tem noção da força que têm suas palavras, seus gestos e, por isso, não reconhece que os precisa controlar - não reprimir, mas controlar mesmo, dar a eles a forma adequada, coisa que, convenhamos, muitos adultos também não sabem como fazer. Suas intenções podem ser ótimas, os sentimentos, genuínos, mas é desmedida a intensidade com que se manifestam. E o mesmo anda acontecendo conosco, como nação.

Por isso, não creio ser possível exigir de nós que deixemos de lado os protestos, a raiva e as incoerências. Não vejo como, ainda, trocar os gritos de guerra nas passeatas por um voto que represente, de fato, protesto. Essa história de "proteste nas urnas e me deixe em paz" não funciona. Até porque isso não é só questão de adolescência. E isso levanta outra capa incômoda.

Podemos ser hospitaleiros, alegres, até mesmo fortes, como queria Euclides da Cunha. Mas nos movemos na mesma toada do restante da humanidade - somos cada vez mais individualistas, não olhamos para o lado e achamos que nossos problemas devem ser resolvidos por outros. Talvez isso se exacerbe em um país herdeiro da tradição de um Dom Sebastião que há de voltar. Mas também é injusto atribuir isso apenas aos antepassados lusitanos.

"Quer protestar, proteste, mas não ME encha a paciência". "Acho justo protestar contra as péssimas condições de vida do povo brasileiro, mas, convenhamos, onde fica o MEU direito de ir-e-vir?". "Por causa dessa gente, demorei uma hora a mais para chegar à MINHA casa e descansar depois do dia de trabalho que EU tive". E o "nós"? Onde fica nessa história toda? 

Não fica. Por isso, ainda mais, parece muito inocente (ia lascando um "hipócrita", mas vou dar o benefício da dúvida) crer que o "proteste na urna" seja uma convicção.  Acho mais que é uma maneira de dizer "não faça barulho, vá lá e deposite na urna o voto que EU quero que você dê". Enquanto isso for assim, o "preço da maturidade democrática" vai continuar sendo apenas uma expressão bonita de se usar em um texto como este.

 



Escrito por Mauro Dunder às 14h39
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SÉCULO XXI? OU SERÁ XII?

O cinema e a literatura têm sido pródigos na criação de monstros, das mais variadas formas e personalidades, com os mais variados comportamentos. À parte toda a capacidade criadora da arte, a realidade parece ser, também nesse particular, insuperável.

Cena 1:

Final de tarde em São Paulo. Marginal Tietê, nas imediações da Rodoviária. Ônibus da Viação Cometa, vindo de Jundiaí. Ao passar pela Ponte Orestes Quércia (aquela estaiadinha), ouve-se o seguinte comentário: "Os caras não queriam sair daí e, quando a Polícia veio, botaram fogo na ponte. É muita falta de vergonha na cara. Precisa fazer isso? Depois a polícia sai matando todo mundo e nego reclama. Não tem onde morar? Que é que eu tenho a ver com isso?". Corta.

Cena 2:

Estação Luz, linha Amarela. Três ou quatro pessoas esperando a chegada do metrô, em direção ao Butantã. De repente, uma mulher aparece, com fones no ouvido, falando alto. Simplesmente se enfia na frente de todo mundo e, quando a porta abre, sai correndo para sentar. No trem, muitos bancos vazios. Corta.

Cena 3:

Na tevê, notícia sobre os rolezinhos (aliás, o Alain Youssef publicou, no Facebook, texto fantástico sobre os rolezinhos na História. Não evoluímos nada.). E o comentário:

"Pelo amor de Deus... Acabou o sossego das famílias mesmo... O único lugar em que a gente podia passear sossegado, agora qualquer um entra". Silêncio. Corta.

Some-se a isso a notícia publicada hoje pelo UOL, a respeito do adolescente negro e gay, cujo corpo foi encontrado com marcas de violência que escritor nenhum conseguiu delinear, ao descrever as torturas da Inquisição no século XIII. E o registro da ocorrência, pela Polícia Civil, como suicídio.

Se alguma dessas monstruosidades fosse ficcional, já seria incômoda o suficiente. Não são. Cada uma em seu grau de violência, representam juntas os séculos de desprezo por tudo o que é humano. Como podemos andar pelas ruas, praticamente tropeçar em mendigos e não ter nenhum pouco de compaixão verdadeira? Desumanizamos totalmente aquelas pessoas, partindo do criminoso pressuposto de que são empecilhos, enfeiam a cidade. Esse higienismo, minha senhora, um dia bate à porta de sua casa. E como é que vai ser?

Não é sequer aceitável que nos deixemos embrutecer dessa forma. Enquanto continuarmos nos dividindo em humanos de "primeira" e de "segunda" categorias, sem levar em conta o denominador comum de sermos humanos, não há esperança para nada. Não votaremos para mudar, não protestaremos com força (até porque os protestos barram o trânsito. E o direito de ir-e-vir, muito maior do que o direito a justiça, educação, saúde, transporte e vida?), não conquistaremos nada. 

A Lívia, ex-aluna mais do que inteligente, comentou uma postagem que fiz a respeito da morte do adolescente. Segundo ela, nas últimas décadas, regredimos em alguns aspectos da convivência. Permito-me discordar dela. Não é que andamos para trás. Estagnamos na Idade Média. Ou antes. Nos tempos em que a única diferença entre o homem e outros animais era uma certa capacidade estratégica, que permitia criar e buscar objetivos arquitetados. 

Criamos uma sociedade em que, a despeito da necessidade de convivência cada vez maior, porque cada vez maior também está a sociedade, tudo parece que se continua ganhando no grito, na força bruta. Acho que a Lívia tem razão. Regredimos, mas a escala da regressão foi maior. Não foram décadas. Voltamos à condição de "homus erectus", apenas ereto. Em nada "sapiens".

 

P.S.: Segue o link para o texto que mencionei, sobre a História dos "rolezinhos" no Brasil - http://www.revistas.usp.br/revusp/article/view/25988



Escrito por Mauro Dunder às 13h18
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REFLEXÕES ESPARSAS

Depois de ter sobrevivido a quatro anos de doutorado, volto a ter tempo para algumas reflexões que, talvez, interessem aos cinco leitores deste blog.

Muitas coisas têm passado pela minha cabeça - como já disse, oca - e, por isso, chamo estas reflexões de "esparsas". Provavelmente, não tenham muito a ver umas com as outras... Mas isso deixo a critério de quem se aventurar a ler.

Ando cada vez mais incomodado com a maneira como as pessoas agem. Nas ruas, nas lojas, nos cafés. Em casa. De alguma maneira, aprendemos a nos comportar como desesperados, em todas as situações: parece que, a cada um, só lhe interessa o seu. A mais tênue noção de coletividade parece ter desaparecido do mundo, a ponto de o governo ter de tentar disciplinar-nos, impondo multas, por exemplo, a quem ouve música em volume que incomode os outros. 

Conversando ontem com a Patrícia, amiga-irmã, cheguei à conclusão de que, mais do que me indignar, isso me entristece. Profundamente. Em que foi que andamos errando, para criar uma sociedade em que o meu gosto e o meu interesse são, necessariamente, mais importantes do que todos os outros? E que cegueira é essa, de não perceber que, mesmo por essa lógica, a recíproca é sempre verdadeira e, assim, estamos em um estado de "salve-se quem puder" até para as coisas mais sem importância?

Talvez, ainda, pior que essa cegueira, seja a outra, a de quem, simplesmente, atribui tudo isso a uma condição de pobreza. Como se nós, os que conseguimos, de alguma maneira honesta, ficar fora dela, não fôssemos diretamente responsável por manter esse cenário. Falar alto, desrespeitar o outro, achar que sua necessidade tem de ser satisfeita "no grito", são, sim, questão de pobreza. Só não podemos neglicenciar o que isso significa.

Há quantos séculos negamos oportunidade de acesso a educação de qualidade? Há quantos séculos impedimos as pessoas de viverem dignamente, sem precisarem implorar, por exemplo, por atendimento médico, por emprego, por casa, por transporte digno? É uma questão de raciocínio: se eu vivo em uma sociedade em que só consigo o de que preciso quando falo alto, quando grito, quando, à força, faço uma fila andar, como vou aprender a respeitar? Se essas coisas não mudarem, vamos seguir apontando as pessoas, chamando-as de mal educadas. Só não vamos perceber que lhes estamos educando assim...

 

***************

 

Por um lapso do destino, Daniel e eu assistimos, na segunda-feira, ao novo programa da Band, "Quem quer casar com meu filho?". 

À parte os comentários sobre a qualidade do programa - que não pretendo ver novamente -, acho que cabem algumas ideias sobre o quanto ele mostra do mundo em que vivemos - e que, volto a dizer, nós construímos.

Diz o senso comum - que nem sempre é bom conselheiro - que encontrar um parceiro, daqueles com que se deseja passar uma vida, envolve compartilhar valores, desejos, visões de mundo e, mais que tudo, conviver com diferenças nesses quesitos, com exceção dos valores, que, exatamente por serem valores, são inegociáveis. E o programa apresentado por Adriane Galisteu não poderia ter sido mais revelador nesse sentido.

Entre um candidato que escolhe as mulheres pelo corpão - com a cara feia da mãe - e outro que, aos 29 anos, revela-se mais imaturo do que os meus alunos de 16, 17, um festival de superficialidade. É sabido que a intenção de um programa de televisão não é, necessariamente, educar ninguém. Ok. Mas não deixa de ser significativo o quanto isso contribui para a manutenção desse modo de pensar. Tudo bem levar uma vida vazia, desde que haja balada, bebida e sexo a vontade. Tudo bem ser um boçal aos 30 anos de idade, desde que tudo seja diversão e prazer barato.

Chama atenção, ainda, que um dos participantes seja homossexual. Mas o politicamente correto para por aí. Um dos participantes declarou ser uma drag queen e, imediatamente, foi descartado pela mãe: "Como você vai construir uma família com uma pessoa assim?".

E assim caminha a (des)humanidade.



Escrito por Mauro Dunder às 11h38
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DE FRANCISCO E RITALINA

Com a tese de doutorado escrita, agora sobra um tempo para escrever aos meus cinco leitores.

Assunto não falta, nunca falta. As já frias manifestações, a visita do Papa Francisco, o bebê da realeza inglesa, isso tudo eu deixo para a imprensa, especialista em cobrir eventos de grande monta.

O que tem me incomodado, muito, nos últimos tempos, é a falta de bom senso que parece ter se tornado o diapasão de nossos dias. Falo em bom senso, porque, infelizmente, gentileza hoje parece um luxo a que pouquíssimas pessoas dão relevância.

Ontem, refletindo sobre isso com a Fabíola (Mái Gódi!) e a Magdalena, mais uma vez veio a constatação de que, hoje, as pessoas parecem tão individualistas que são incapazes de olhar para o lado e perceber que suas necessidades e seus desejos não são os únicos. Parece que, mais do que nunca, tudo o que importa é que eu me “dê bem”, independentemente do que isso vá causar a quem quer que seja.

De alguma maneira, isso também está na origem do que levou o povo brasileiro às ruas, nos últimos meses. Estamos fartos de sermos desprezados por quem, a rigor, foi por nós mesmos escolhido para governar nosso destino. A Torre de Marfim dos políticos, que, por alguns dias, pareceu chacoalhar ao som da voz das ruas – aquela que o Deputado Campos Machado diz não ouvir – fechou-se novamente, contando com a nossa estupidez. Parece que não estão completamente equivocados em sua leitura. Ainda não aprendemos que temos voz e que ela é fundamental para qualquer forma de mudança que desejemos.

Um dos outros lados dessa questão, entretanto, é o que me faz escrever hoje. Tenho uma pergunta na cabeça, há algum tempo, e que, nos últimos dias, tornou-se ainda mais forte: quando foi que aprendemos a nos contentar com tão pouco, no que diz respeito à vida de todos os dias? Quando nos ensinaram – e quem o fez – que falar mais alto nos ônibus e trens não é desrespeitoso? Que empurrar quem quer que seja para entrar no metrô e ganhar um ou dois minutos na corrida para casa vale qualquer sacrifício? Que jogar lixo na rua e me livrar do que está na minha mão é a regra para descartar o que eu não quero mais? Que o mundo é só meu e ninguém tem o direito de se indignar comigo?

 

Já virou clichê o verso de Caetano, dizendo que “Alguma coisa está fora da ordem”. Mas está. E esse individualismo parece ser a arma que as esferas superiores aprenderam a manipular, para agirem à nossa revelia. Afinal, se não há problema em empurrar alguém para passar antes pela catraca, se não é desrespeitoso jogar meu lixo na rua de todo mundo, não é também um problema tirar dinheiro das escolas e dos hospitais para colocá-lo na minha conta bancária. Só que isso tudo tem feições que passam despercebidas na vida cotidiana, que levamos fora da tal Torre de Marfim; por exemplo, aquilo que costumo chamar de "terceirização da educação dos filhos".

Cada vez mais comum é ver, nas escolas por aí, alunos que são depositados nas escolas, na esperança de que professores possam fazer o que, de fato, cabe aos pais. Ultimamente, além de Português, Matemática, Inglês, temos de ensinar a ouvir o outro, a esperar sua vez de falar, a pedir licença, a dizer "por favor". Claro que isso também é parte de nosso ofício, mas não só. E aí, na tentativa de resolver essas questões da maneira prática e rápida que a contemporaneidade requer, não se gasta o parco tempo ensinando isso a um filho - até porque, com honrosas exceções, essas coisas não são relevantes para muitos adultos também. É mais fácil pagar para um terapeuta resolver isso por mim, e para um psiquiatra prescrever educação em comprimidos, de preferência que se possam tomar só uma vez por dia, para não dar trabalho.

De maneira nenhuma, questiono o trabalho de psicólogos e psiquiatras. Sanidade mental é a chave para qualquer vida. Só que não pode ser mercado, não pode ser equívoco. Já vi muitos adolescentes mal educados transformarem-se em vegetais, entupidos de Ritalina, quando bons exemplos e conversas em casa resolveriam tudo muito melhor. Parece que o que importa é não encher o saco, não dar trabalho. Nisso, é bom que se diga, também tem o dedo de orientadores e coordenadores pedagógicos, bem intencionados ou  não, mas completamente equivocados. Adolescente bom não é adolescente cordato, pacificado. Adolescente questiona, enfrenta, briga mesmo. E aprende com os exemplos dos pais e dos professores, não com nossas palavras. Mas, no ritmo do "só me importa resolver o que me atinge diretamente", dá-se um comprimidinho para o garoto e, pronto, meu problema está resolvido. E o dele? E o dos que convivem com ele? E o do mundo, do qual ele faz parte?

É comum adultos dizerem que os mais jovens são alienados e desinteressados pelo que "importa". E dizem isso lendo Caras, emocionados com o nascimento do Príncipe Herdeiro inglês. Alguma coisa está mesmo fora da ordem. Pau que bate em Chico não anda batendo em Francisco, não.



Escrito por Mauro Dunder às 13h00
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SÓ SEI SER ASSIM...

Só sei ser assim.

Gosto de compartilhar as coisas que me fazem bem, as que me fazem pensar e chorar de emoção.

Gosto de me sentir vivo, seja pelo prazer, seja pela indignação. E gosto de ter gente comigo, ao redor de uma mesa ou na tela de um computador. Adoro pensar que sou um gregário (até no espaço virtual). Prova disso foi a diversidade de tribos que senti vontade de presentear hoje com uma musiquinha do YouTube no Facebook...

Já comentei aqui algumas vezes - e os meus cinco leitores, todos, podem atestar isso - que, por questão de herança genética, choro vendo até comercial de banco (e nem é de raiva...). E aí, eu pergunto: tem como ouvir algumas coisas e não chorar?

Tem como ouvir a Monica Salmaso cantar que "Menina, amanhã de manhã, quero te dizer que a felicidade vai desabar sobre os homens" e não ter um pouquinho que seja de fé na vida e na possibilidade de ser feliz?

Tem como ouvir o Chico César cantar "Os olhos tristes da fita/ Rodando no gravador/ Uma moça cozendo roupa/ Com a linha do Equador" e não agradecer ao Destino por falar uma língua tão melódica e rica pra poesia como o português?

Digam se há como ouvir o Milton Nascimento cantar "Minas", ou a Elis Regina cantar, também do Milton, "Morro Velho", e não ficar com uma âncora na garganta (porque, convenhamos, nó é pouco)?

Tem como?

Há alguma possibilidade de um vivente com sangue nas veias ouvir o Geraldo Vandré cantar "Na terra como no céu" e não sentir aquela indignação que nos move a querermos ser melhores?

Tem como não se alegrar ao ouvir Nazaré Pereira e a sua "Sinhá Pureza"?

E ouvir Lia de Itamaracá cantar? Tem como não se emocionar com ela?

Dá para não esperar um dia melhor quando o Nando Reis canta "Bom dia, agora nasceu um novo dia, Doutor Zezé..."? Ou a Inezita, com sua voz mais do que poderosa, cantar a triste vida de Mãe Maria, em "Na serra da Mantiqueira"? E é possível não abrir um sorriso quando ela canta para a marota "Maricota, sai da chuva, deixa, deixa de embromá/ Maricota, sai da chuva, que tu vai te aconstipá"?

Choro. Choro de alegria, choro de emoção, choro porque meu coração pede... Choro porque quero acreditar que, de alguma maneira, a música faça as pessoas mais felizes e, assim, menos endurecidas.

Mas começo a achar que, de fato, o que me emociona tanto em ouvir certas músicas, além, é claro, das coisas que elas tocam aqui dentro de mim, é o fato de que muitas delas me fazem pensar em gente querida, tanto pessoas que vejo sempre, quanto aquelas que passo muito tempo sem ver... E é isso que torna tudo mais colorido...

Enxergar a Dri quando ouço "Menina, amanhã de manhã, quero te dizer que a felicidade vai desabar sobre os homens", porque foi ela que me apresentou a essa música...

Pensar na Claudinha, na Sirlene e no Fonseca quando o Milton canta "Minas", ou na Marlise, ao ouvir a Elis cantar"Morro Velho".

Pensar com carinho na Naida e na Cida Sarraf, minhas professoras queridas dos tempos de Paulo Egydio, que me ensinaram a ser indignado, quando escuto o Vandré cantando "Na terra como no céu"...

Lembrar-me do Cleber e seu mau humor encantador ao som da "Sinhá Pureza" e de qualquer outra coisa que a Nazaré Pereira Cante...

Pensar, com carinho, na Myrinha e na Mônica Cardoso, quando ouço a Lia de Itamaracá...

Agradecer ao Destino por ter me posto no caminho a Giuliana, aluna querida que me fez crer de novo na Pedagogia brasileira e, de quebra, me apresentou ao Nando Reis e seu "Bom dia, agora nasceu um novo dia, Doutor Zezé..."?

Recordar, com muita saudade e carinho, a minha querida avó, Dona Izaura de Oliveira, a Vó Bita, quando escuto a Inezita cantar a "Maricota, sai da chuva, deixa, deixa de embromá/ Maricota, sai da chuva, que tu vai te aconstipá"...

Por isso, quando o Bituca canta que "Há um menino, há um moleque morando sempre no meu coração, toda vez que o adulto balança, ele vem pra me dar a mão", peço ao Destino, com muita fé, que não me permita ver morrer esse moleque - que eu tenha sempre o Dom de ver no mundo um pouco de beleza e luz. E que possa, sempre e cada vez mais, dividi-la. Porque, só para ficar no Milton Nascimento, "não posso, não quero, não devo viver como toda essa gente insiste em viver".



Escrito por Mauro Dunder às 23h39
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(DES)ENCONTRO EM LISBOA I

 

 

 

Para a Lídia Jorge e o Carlos Albino

Para a Naira, que queria ser Pessoa, mas foi a nossa Jalile

 

Há todo um mundo aqui dentro, só não sei o que fazer com ele, disse o homem de chapéu branco e óculos escuros. Ele sabia. O mundo que partia de si para os outros era limitado, mas infinitamente maior para dentro. Tolo, estúpido, burro. Essa era a impressão que o homem de chapéu branco passava a quem o conhecesse pouco. A questão era que ninguém o conhecia muito, ele não se dava a conhecer assim, a qualquer um. Questão de princípios, dizia a mãe, que costumava arrematar dizendo não te esqueças de que quem muito ri, dá bom dia a cavalo.

Há todo um mundo aqui dentro. Cores, sabores, aromas, toque, pele, gozo. Tudo armazenado, meticulosamente guardado para o dia. O dia que ele nem sequer sabia qual era. Nada nele era comum ou ordinário. Era como se, na capa de um disco de Amália, o xaile negro desse lugar a uma manta peruana – todos haviam de notá-lo. Os óculos escuros e o chapéu branco, sua marca, foram presentes de um amigo – talvez o único. Cobre-te com isto, hão-de deixar-te em paz. Ledo engano. O homem de chapéu branco e óculos escuros era singular demais para ser deixado em paz, só não tinha disso a mais remota consciência.

Pelas ruelas da Alfama, falavam, inclusive, que se tratava de um fantasma, uma alma penada que habitava os sítios do Castelo de São Jorge e que gostava de espantar as pessoas que caminhavam pelas travessas. O padre-vigário da Catedral da Sé até tentava desfazer o dito popular, mas o veneno das palavras das velhas beatas transcendia a força de qualquer pregação. E foi assim desde os primórdios. O homem do chapéu branco passava, mais assustado do que assustador, em busca de alguma coisa, que nem de longe sabia o que era. Percorria a freguesia de lés-a-lés, espreitava, escutava e saía correndo, em busca de, pelo menos, um olhar que lhe fosse familiar, algo que lhe pudesse dar uma sombra, uma nesga de ideia de quem fosse.

O documento de identidade não dizia nada além de um nome, João António Figueira, uma data, 12 de Janeiro de 1926, mais dois nomes – um desconhecido, Alberto Luís Figueira – e Maria dos Prazeres Alves Figueira, este mais familiar, era a Dona Prazeres, o que prova o quanto os nomes, como de resto tudo nesta existência, é-nos dado ao acaso, ao mais puro sabor dos ventos do Fado. De resto, sabia ter nascido em Albufeira, também porque o documento disto o informava. Sabia, ainda, de ter ouvido a mãe dizer, que, no dia em que havia nascido, Albufeira estava coberta por uma espessa nebulosidade, sofria de um frio inverno algarvio. Foi um dia triste, dizia Dona Prazeres, tudo muito cinza, de um frio de bater os queixos, um frio dos infernos, se Deus Nosso Senhor houvesse feito frio o inferno. E isso era uma das coisas que mais espantava o homem do chapéu branco e dos óculos escuros, porque, mesmo não sabendo de nada, sentia. E sentia que trazia dentro de si o sol, o calor, as cores que a primavera traz ao mundo, de modo tão natural e fácil, que esteve, a vida toda, a quase blasfemar contra a mãe, chamá-la mentirosa e má, porque não era possível que fosse assim o mundo, tão frio, a dar lume a uma vida tão intensa, represada que ainda fosse, se tivesse o garoto consciência disso tudo.

(continua...)



Escrito por Mauro Dunder às 17h27
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(DES)ENCONTRO EM LISBOA II

 

 

 

E magicava nisso, naquele dia em que dizia há todo um mundo aqui dentro, só não sei o que fazer com ele. Ao passar pela Tasca Bela, o homem de chapéu branco e óculos escuros sentiu, de maneira inequívoca e inédita, com mais força, que o sol daquele Abril não era apenas um fenómeno geográfico vulgar, mas era seu lugar no mundo, era, talvez, aquele mundo imenso que ele trazia dentro de si, sem saber como torná-lo realmente seu. Soube isso em um susto, daqueles que duram um átimo, mas que deixam marcas muito longas e muito fundas em qualquer pessoa, apesar dos óculos escuros, que teimam em tornar o sol mais triste, e do chapéu branco, espécie de marca de nascença para João António. Naquele exacto momento, em uma casota pobre, de uma velha rezadeira, Amália cantava, mais forte do que nunca, Que destino ou maldição manda em nós, meu coração, um do outro assim perdidos? Somos dois gritos calados, dois fados desencontrados, dois amantes desunidos. Alguém o traduzia, enfim, alguém acendia o lume para que pudesse, de facto, pela primeira vez em toda uma existência apagada, anémica, pálida, mesmo que de forma torta, como, aliás, é qualquer fado verdadeiro, vislumbrar um fio, uma linha que, se talvez puxasse, pudesse vir a desenrolar, como um novelo emaranhado do qual se encontra, finalmente o começo, sem se saber, entretanto, se calhar, não fosse o final. O homem de chapéu branco e óculos escuros, por fim, sentiu rolar de seu peito a primeira lágrima legítima, o primeiro sinal de que havia algo mais lá dentro, sim.

 

A figura de dona Prazeres, entretanto, visguenta como todo morto, teima em aparecer, olha que quem muito ri, dá bom dia a cavalo. Não, mamã, não hoje, por favor, pediu o menino assustado, transfigurado em um homem de chapéu branco e óculos escuros, hoje, mamã, estou a descobrir quem sou, o que é isto que trago aqui, que me belisca como um pernilongo, uma pulga, que me suga o sangue d’alma, mamã, olha, não fiques assim triste comigo, não vais ver-me bulir a loiça, não vou atormentar-te, mamã, só quero saber o que é isso que me consome e me mantém vivo. Hoje, não, mamã, peço-te. Os carros, poucos, que passavam pela Rua dos Remédios, só conseguiam ver uma figura peripatética, assustada sabe-se lá com o quê, a palrar sozinho, a fazer gestos como quem espanta moscas e ideias. Os pobres riam-se do homem de chapéu branco e óculos escuros, desconhecendo, entretanto, que ali estava a nascer um Homem, um irmão, um igual, que muito esperava por isso, completamente ignorante de si mesmo, de qualquer coisa que não fosse a faina sofrida de perambular pelas vielas da Alfama, no máximo dando-se a ver pelas travessas da Mouraria, em busca, em busca, em busca.

De maldade quase inocente, dois miúdos que passavam pela calçada acharam por bem atirar-lhe uma lata vazia, o mais pequeno ainda gritou passa, alma dos infernos, o que fez muita gente achar graça e rir sobejamente. O homem do chapéu branco e dos óculos escuros, de novo, derramou uma lágrima, só que esta, ninguém, como habitualmente, perceberia. Era uma lágrima de culpa, culpa de existir, de respirar, de usufruir o oxigeno dos outros, de ocupar um espaço só destinado a gente, a toda a gente que sabia porque existia. E ele não tinha esse direito, não sabia, não podia saber. O pequeno-almoço, modesto, pobre mesmo, quase volta-lhe pela boca; uma dor, mais intensa do que tudo o que já havia sentido, tomava lugar da pequena côdea e do café morno e fraco que havia tomado, café feito sozinho, café de solidão que o homem do chapéu branco e dos óculos escuros aprendera a fazer com a mãe, café aprendido na miséria, na contagem sem fim de moedas, de migalhas de escudos que Dona Prazeres guardava na segunda gaveta da cómoda, bem sob os trapos de cozinha.

Não era velho o homem de chapéu branco e óculos escuros. Dizia o documento que contava pouco mais de quarenta e sete anos, ainda que trouxesse no rosto e na alma marcas de tempos imemoriais, como quem arrasta atrás de si um saco de tarecos velhos, quase todos inúteis já, dos quais, por alguma mágica, não se consegue libertar. As crianças o amofinavam imenso, os adultos dividiam-se entre o riso frouxo, cruel, e o dó misericordioso, desses que nenhum humano merece receber dos outros, as velhas benziam-se diante dele, como quem vê um pecado repugnante e assustador. O fato é que ninguém se mantinha impassível diante do homem de chapéu branco e óculos escuros, uma abantesma anacrónica a perambular pelas ruas da Lisboa baixa.

Um dia, na procissão da Senhora da Saúde, ainda nos tempos de Dona Prazeres, Antoninho, àquela altura sem chapéu nem óculos, pela única vez na vida teve um momento – brevíssimo – de paz. Incomodado pela maneira como toda a gente tratava o pequeno, o Padre Soeiro decidiu que, naquele ano, o menino é quem carregaria o estandarte de Nossa Senhora da Saúde, no lugar da beata Dona Maximina, tão velha quanto o rei de quem herdara o nome, antiga camareira de D. Amélia de Orleães, muito altiva, ainda bastante forte. Mal sabia o menino, muito menos o bom padre, que aquele pequenino, curtíssimo momento de paz, seria o prenúncio do purgatório que o futuro guardava para o Antoninho. A velha Maximina, inconformada com a destituição repentina da posição de porta-estandarte da procissão, esconjurou imenso, ameaçou boicotar a procissão, ah, senhor pároco, se não me seguro! Um acinte! Um acinte! Está a tramar a pá de cal sobre si, senhor pároco! Pois vai ver se não demovo umas quantas pessoas de ir à sua procissãozinha… Cá o espero, senhor Padre Soeiro! Cá o espero! 

 

Foi o quanto bastou para que o miúdo caísse em desgraça. Não bastasse ser filho sem pai, de uma mãe que vive em pecado, que não tem a mão firme de um homem que lhe ponha freios, nem a si nem ao filho, ainda trama para usurpar Dona Maximina! Ai, pobrezinha, pobre velha, desvalida, sem mais nada que lhe dê sentido à vida, agora que a monarquia já não mais existe há um bom par de anos, Deus proteja o Salazar, que este, sim, pôs fim ao valha-me-Jesus que era aquela esbornia no Palácio da Pena, o Senhor conserve e abençoe o boníssimo Salazar, um santo, isso é que é. É uma injustiça do senhor Padre Soeiro tirar o estandarte de mãos tão imaculadas e pô-lo justo naquele estupor, o filho da Prazeres. Ainda morasse na Mouraria, havia-se de compreender, mas o puto mora em Alfama! Em Alfama, bairro que cheira a sardinhas fritas, pecado e ginja, que derrama sobre quem lá mora o vício da cantoria! Essa é que não!

Assim, como se Deus fosse o Diabo e soprasse a ira sobre as cabeças santas das beatas, o menino Antoninho tornou-se inimigo da Senhora da Saúde, criança tinhosa, aleivosia de carne e osso, mal a que se busca extirpar. Deste momento em diante, o homem de chapéu branco e óculos escuros, sem sequer saber direito por que, viu-se zombado, ridicularizado pelos adultos e pelos outros miúdos, os quais macaqueavam seus pais, dizendo calões ao menino, chamando-o cancro, aleijão, filho do Canho, do Esquerdo, atirando-lhe coisas, jogando-lhe restos dos penicos, que em algumas casas ainda havia, cuspindo-lhe à cara. E o Antoninho, resignado menos por convicção de masculinidade do que pelo medo infindo que tinha da mãe, és homem ou o que, Antoninho, diz-me lá, és homem ou o que, deixava-se atingir pelos tarecos que se lhe atiravam, limpava-se dos restos das noites sem retrete e da saliva da gente má, guardando para si – e só para si – as lágrimas que, claro está, não tinha direito a verter. E com isso habituou-se tanto, que mesmo o atávico direito ao ódio, ao rancor, ao desejo de vingança que corrói, não deu as caras ao menino. E esta, provavelmente, tenha sido sua sorte maior: não aprendeu a amar, mas, muito menos, desenvolveu a habilidade de odiar. Aos olhos tolos das beatas, era um molengão, um parvo, se não se defende é porque sabe o mal que fez à pobre Velha Maximina.

O miúdo calou-se, calou-se junto com o direito ao amor, ao prazer, à alegria de um simples catavento a girar em dia de céu azul e brisa do Tejo. Calou-se, como o próprio Antoninho, que nunca mais falou mais do que uma dúzia de palavras, embora soubesse, de ouvir, muito mais do que duas, do que três, do que todas as dúzias que se puder contar. O futuro homem de chapéu branco e óculos escuros ainda não sabia, talvez nunca viesse a saber, mas tinha em si todas as palavras do mundo, com sua força que ergue e destrói, com a intensidade de um rosário que se desfia com a fé dos portugueses, com a beleza do canto de Amália, com a vida que se desperta quando a mulher que se ama nos abraça, com o vigor do sorriso do filho.

Calou-se, cresceu calado, ameaçado constantemente pelo que, para quem visse, pareceria ódio rancoroso. Dona Maria dos Prazeres não encontrava outra maneira de mostrar o quanto lhe doía ver seu filho, nunca desejado, mas seu, fruto de sua carne e de seu sangue, além de pisar-lhe da maneira mais eficaz que existe. A pobre mulher desenvolveu a mais profunda indiferença pelo pequeno, como se, ao não tomar ciência de seu calvário, doesse-lhe menos o sofrimento do filho. Uma indiferença cruel, que não via limites e não poupava o miúdo, remédio amargo para tentar curar a ferida do coração.

Calado amealhou, desde a infância, um tesouro pífio: uma alfarroba seca, que apanhou uma vez, na estação dos comboios, talvez caído do saco de alguém vindo de Loulé; um papel velho, amarelo já a aquela altura, em que aparecia um endereço em Odivelas, Rua Viriato, no 25, 3º esquerdo. Por medo óbvio, ou por já ter incorporado de todo a resignação de não procurar, não descobrir, não ter curiosidade, Antoninho nunca ousou sequer ir para os lados de Odivelas, nem iria, ainda se fosse, com isso, salvar sua própria vida; uma capa de um dos discos de Maria Teresa de Noronha, só a parte da frente, com a foto da fadista, aos olhos do menino uma beleza ímpar; uma medalhinha de Nossa Senhora da Saúde, a quem o menino recorria quando os fantasmas que importunam qualquer criança o vinham amofinar, nas longas noites sem sono, e por quem o menino passou a nutrir uma devoção ainda maior, depois do episódio do estandarte de Dona Maximina; um pedregulho, atirado por um pequeno, em um dos raríssimos dias no qual Antoninho ia a gastar o tempo lá para os lados de Alcântara, uma pedra que lhe foi doída, mas de uma cor tão viva, que o pequeno logo se esqueceu da dor, porque a beleza lhe falou mais alto; um resto de lápis encarnado, atirado pela janela de uma casa da Adiça, por alguém que julgou não ter o toco de grafite vermelho qualquer serventia; para o menino, foi como sentir uma fisgada no estômago: alguma coisa o tocou profundo, atraindo-o imenso.

Teve um único amigo, na infância e para sempre, o Pedro Pina, menino magro, que andava arrastando a perna esquerda, por conta de uma doença de infância, a única pessoa que nunca xingou Antoninho, que tentou ensiná-lo a defender-se dos acintes, a puxar de dentro de si uma armadura invisível que o poupasse dos ataques. Pedro Pina conheceu Antoninho no primeiro ano do primeiro ciclo, de onde saiu, um ano depois do amigo, no terceiro ano, para ajudar o pai, carregador de caixotes na Ribeira. No começo, não atinou para o fato de que, quando em vez, sentia falta da companhia silenciosa do menino da Alfama; um dia, quando o pai o liberou do trabalho, sem nenhuma razão aparente para isso, Pedro Pina usou o tempo que tinha para procurar Antoninho. Os dois saíram a caminhar pela Alfama, dali para a Ribeira, Santa Apolónia e, quando deram por si, estavam em um lugar completamente desconhecido para os dois, do qual saíram a custo, já na boca da noite. Desse dia, da caminhada quase muda, ficou o hábito de estarem juntos, ainda que não trocassem mais do que meia dúzia de palavras, mais uns quantos sons guturais e acenos de cabeça.

Apesar da pouca instrução, Pedro Pina raramente se deixava passar para trás, fosse nos jogos infantis, enquanto os pode fruir, fosse nas conversas com os amigos do pai, homens feitos, com quem se instruiu muito antes do que os companheiros no liceu da vida. Não tardou até que compreendesse, na medida de suas possibilidades, o que vivia – ou o que presumia viver – seu amigo de Alfama e, por isso, tornou-se uma espécie de defensor de Antoninho. Comprava-lhe as brigas, assumia-lhe a guarda, protegia-o dos tormentos mais ameaçadores, sem nunca pedir em troca mais do que um olhar de cumplicidade. Um dia, já na vida adulta, ao caminhar pela Baixa, indo ao trabalho, viu em uma casa de roupa masculina um par de óculos escuros e um chapéu branco. Ao final de meses, viu que tinha guardado os escudos de que precisava para comprar os acessórios. Fê-lo e, imediatamente, foi procurar o Antoninho, que a esta altura vendia, na Rua dos Fanqueiros, os pastéis feitos pela mãe, para matar a fome da malta que por ali passava, mas que não tinha mais do que trocados nos bolsos. Cobre-te com isto, hão-de deixar-te em paz. Sem saber, Pedro Pina havia criado, ainda que não desse por isso, uma das personagens mais folclóricas das ruas de Lisboa.

Amália já terminava de cantar a Maldição, quando, voltando a si, o homem do chapéu branco e dos óculos escuros percebeu que havia passado por alguma coisa realmente especial, apesar de não saber o que havia realmente acontecido consigo. Quem muito ri dá bom dia a cavalo. Fechou-se em copas e foi à casinhota, mais atrapalhado, mais lunático, diziam as mulheres que, a esta hora, saiam das águas-furtadas, a fim de tomar o autocarro, muitas para o Cais do Sodré, algumas outras para o Conde de Ourique ou São Sebastião, onde trabalhavam em pequenas lojas de secos-e-molhados, armazéns decadentes e pastelarias do tempo das avós. Era ainda cedo, a manhã mal começava em Lisboa, e já aquela gente saía com cara de cansaço, como se houvessem passado a noite a cantar o fado de tasca em tasca. A Luzia, uma saloia de olhos grandes e pele macerada pela amofinação que lhe era a vida, para não deixar passar o hábito, gritou da janela, “Vate, assombração!”. Antoninho nem a ouviu, queria não esquecer o que sentia, não podia deixar escapar do coração aquela sensação de novidade, de susto, de alguém que descobre, de repente, que há uma cidade inteira escondida por trás de um muro imenso, muro que sempre foi limite do mundo, muro que não era divisória, porque não havia, até então, o que dividir. Muro absoluto. O homem do chapéu branco e dos óculos escuros queria sorrir, mas não sabia como se fazia isso. Nunca quis dar bom dia a cavalo, ainda que nem de muito longe houvesse pensado que esse anexim não fazia muito sentido, como tantos outros.

(continua...)

 



Escrito por Mauro Dunder às 17h26
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