Sopa de Letras
   



BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, HIGIENOPOLIS, Homem, de 26 a 35 anos, Portuguese, English, Livros, Arte e cultura, dar umas aulinhas...
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"OLHA EU AÍ, JÁ VOLTEI DE FÉRIAS..."

Os mais experientes, como eu, devem estar cantando o restante da musiquinha: "já passei no Mappin, vou voltar pra escola, já passei no Mappin, já me equipei, afinal, eu sou bom colegial...". É tempo de recomeçar a batalha a que decidi, 20 anos atrás, me dedicar por toda a vida. Quem me conhece sabe o quanto a sala de aula me faz bem, o quanto sou feliz no exercício do magistério. O que talvez pouca gente saiba é que, há algum tempo, sinto que minha vocação está desvirtuada. Pode ser pura bobagem, mas, nos últimos anos, tenho trabalhado em instituições a que poucos têm acesso, o que contradiz, de certa forma, o que me motivou a fazer Letras. Quando decidi ser professor, tinha o ideal de mudar o mundo, não a utopia de transformá-lo sozinho, mas no desejo de fazer o que me cabia, dando a quem precisava a chance de transformar sua vida pelo aprendizado.

Fui professor de escola pública, de cursinho pré-vestibular. Hoje, sou professor de um colégio de elite e de uma universidade - nada de elite, diga-se - e, por isso, sinto meio distante o universo que me levou a querer educar. Frequentemente, penso que, ao trabalhar com alunos que têm acesso a uma educação privilegiada, caso dos pupilos do colégio, a função social de meu trabalho tenha se perdido. Na universidade, por mais que muitos alunos estejam interessados apenas na parte técnica de uma profissão - e muitos mais apenas na compra de um diploma "em suaves prestações", como dizia o professor Ivan Cruz Rodrigues, grande mestre que me ensinou muito mais do que matemática -, sinto que tenho cumprido meu papel. Entretanto, ao informar-me sobre a situação da educação nacional, bate forte um desalento. Será que, ao ensinar os futuros líderes deste país, estou, de fato, dando a mão a quem precisa? Será que não seria mais nobre - e mais próximo do que sempre desejei - trabalhar com alunos de baixa renda, que podem ter na educação um instrumento forte de mudança de seus próprios destinos?

Na Uniban, trabalhei dois anos com alunos do curso de Pedagogia. Ao formar futuros colegas, acreditava estar colaborando para transformar a realidade do meu país. E agora, trabalhando no curso de Rádio e TV, que relevância social tem meu exercício profissional?

Se alguém tem um vislumbre de resposta, ao menos, por favor, dê uma luz, sim?



Escrito por Mauro Dunder às 01h01
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"DO ALTO DE SUAS VASSOURAS"

"Isso é uma vergonha!", dispara o virulento Bóris Casoy contra os maiores e mais graves disparates que a realidade brasileira impinge-nos todos os dias. Cinco minutos atrás, assistindo ao "Jornal da Band", vejo o apresentador pedir desculpas por uma frase "infeliz", ofensiva aos garis, dita durante os comerciais do jornal de ontem. Fui ao YouTube e achei a imagem.

Confesso que fiquei, muito mais do que decepcionado, revoltado. Se a imprensa nacional é feita de gente assim - claro que não só, mas também - nós, que dependemos dessa imprensa para entender um pouco melhor, em maior escala, o que se passa ao nosso redor - posso saber o que se passa no meu prédio, na minha rua, quando muito no meu bairro, mas Brasília está um pouco longe disse -, ficamos como? À mercê dos preconceitos dessa gente? E mais, se um jornalista do renome (será?) de Boris Casoy, teoricamente de sólida formação cultural, traz consigo esse tipo de ranço, o que esperar de uma população em que a cultura, a educação, o saber são desvalorizados sistematicamente?

Imagine meia dúzia de pessoas como ele, com esse pensamento, com poder suficiente para decidir os destinos dos quase 200 milhões de brasileiros que somos... Imagine, agora, as consequências disso: pobres restritos a seu próprio universo, impedidos de acessar o que cabe aos "ricos", à "burguesia"...

Se você lê este blog, é porque é letrado e pensa... Já deve ter percebido que as pessoas que nos comandam guardam, de diferentes formas, os mesmos ranços "pequeno-burgueses" de Casoy.

O mais assustador é pensar que gente desse jeito tem poder, e passa despercebida pela maior parte da população nacional...

Ah, em tempo: FELIZ ANO NOVO...

Que tal fazê-lo novo mesmo, ficando longe de gente como essa?



Escrito por Mauro Dunder às 19h59
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INFELIZMENTE, ALGUMAS COISAS CONTINUAM AS MESMAS...

Lendo o noticiário a respeito da entrega do garoto Sean Goldman ao pai biológico, minha opinião experimentou algumas transformações. No início, pensei que não havia razão para tanto estardalhaço da família brasileira. É fato que o garoto estava acostumado com a família brasileira, mas o direito paterno é, também, fato. Em seguida, descubro que, de acordo com a Convenção de Haia para a proteção dos direitos da criança, trazer o próprio filho consigo é sequestro - ao menos aos olhos dos Estados Unidos que, vamos combinar, regem a política internacional mundial. Qual não foi a minha (inocente) surpresa quando leio que, assim que o Ministro Gilmar Mendes determinou a entrega do garoto ao pai, o Senado americano liberou um pequeno "mimo" de alguns bilhões de dólares para o governo brasileiro. A votação no Senado dos Estados Unidos estava bloqueada como "protesto" contra a permanência de Sean no Brasil e, pasmem!, a Secretária de Estado Americana, Hillary Clinton, chegou a pressionar diretamente o governo brasileiro para que o garoto fosse "restituído" ao pai, exatamente como nosso Imposto de Renda - o menino virou moeda de troca, literalmente...

Lembrei-me, imediatamente, da canção cujos trechos seguem abaixo:

"Houve um tempo em que se acabaram
Os tempos duros e sofridos
Pois um dia aqui chegaram os capitais dos..
Estados Unidos
País amigo desenvolvido
País amigo, país amigo

Amigo do subdesenvolvido
País amigo, país amigo
E nossos amigos americanos
Com muita fé, com muita fé
Nos deram dinheiro e nós plantamos
Nada mais que café
E uma terra em que plantando tudo dá
Mas eles resolveram que a gente ia plantar
Nada mais que café

Bento que bento é o frade - frade!
Na boca do forno - forno!

Tirai um bolo - bolo!
Fareis tudo que seu mestre mandar?
Faremos todos, faremos todos...

E começaram a nos vender e a nos comprar
Comprar borracha - vender pneu
Comprar madeira - vender navio
Pra nossa vela - vender pavio
Só mandaram o que sobrou de lá
Matéria plástica,
Que entusiástica
Que coisa elástica,
Que coisa drástica
Rock-balada, filme de mocinho
Ar refrigerado e chiclet de bola
E coca-cola! Oh...
Subdesenvolvido, subdesenvolvido... etc. (refrão)

O povo brasileiro tem personalidade
Não se impressiona com facilidade
Embora pense como desenvolvido
Embora dance como desenvolvido
Embora cante como desenvolvido
Lá, lá, la, la, la, la
Êh, êh, meu boi
Êh, roçado bão
O meior do meu sertão
Comeram o boi...
Subdesenvolvido, subdesenvolvido, etc. (refrão)

Tem personalidade!
Não se impressiona com facilidade
Embora pense, dance e cante como desenvolvido
O povo brasileiro
Não come como desenvolvido
Não bebe como desenvolvido
Vive menos, sofre mais
Isso é muito importante
Muito mais do que importante
Pois difere os brasileiros dos demais
Pela... personalidade, personalidade
Personalidade sem igual
Porém... subdesenvolvida, subdesenvolvida
E essa é que é a vida nacional!" (Carlos Lyra - Canção do Subdesenvolvido)

 

 

É... Nascemos para quintal, mesmo...



Escrito por Mauro Dunder às 10h30
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BALANCETE I - MELHOR QUE MÃE DINAH...

"2009 vem aí, com várias coisas para acontecer: vou voltar a dar aulas à noite, vou terminar a reforma da "ala social" do apê, vou estudar espanhol, vou defender meu mestrado, vou viver intensamente mais um ano com o Daniel, vou curtir muito minha amiga-irmã. Vou viajar para o exterior, vou, pasmen, tomar café-da-manhã com o Pluto e o Pateta. Mas serei realista: não vou conseguir resolver todos os meus problemas de grana, provavelmente não vai sobrar dinheiro nem vou voltar a ter dinheiro para as coisas desnecessárias, mas que enchem a vida com um pouco mais de graça... E isso me faz pensar que todo o tempo que vivi gastando dinheiro para encontrar essa graça foi uma espécie de desperdício. Ou quem sabe, de expurgo. Talvez eu tivesse mesmo que me desfazer de todo o meu espírito consumista para descobrir que, com toda a pieguice que esta frase de comercial de margarina traz, a felicidade é muito mais barata do que pude, um dia, imaginar."

PROJETOS CONCRETIZADOS:

1. Voltar a trabalhar em uma universidade. Como diz Onélia Miranda, cuidado com as palavras que diz... Elas têm um poder!

2. Terminar a reforma da ala social do apê. Tá lindo!

3. Estudar espanhol. AMO!

4. Defender o Mestrado - e, de lambuja, comecei o doutorado!

5. Viver intensamente mais um ano com o Daniel - tem sido intenso, mesmo. Para o bem e para o mal...

PROJETO MAIS OU MENOS CONCRETIZADO:

1. Curtir muito minha amiga-irmã. Faltou-nos tempo. Mas é sempre bom tê-la pertinho...

PROJETO "MISSÃO ABORTADA":

1.Viajar para o exterior.

2. Tomar café da manhã com o Pluto. Minha cunhada já está voltando para o Brasil e ir à Disney era só para aproveitar uma pretensa visita a ela.

PREVISÕES ACERTADAS:

1. Todas as que fiz sobre não conseguir resolver os problemas de grana e não ter dinheiro para as coisas desnecessárias, porém saborosas.



Escrito por Mauro Dunder às 22h57
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O SEGUNDO NATAL

Hoje, indo à estação de metrô, dei de cara com uma enorme bola de Natal no jardim de um prédio comercial, na esquina da Paulista com a Haddock Lobo. Isso me fez pensar, imediatamente, que eu já havia visto aquela cena, e que este será meu segundo final de ano morando sozinho, no meu próprio apartamento. Inevitavelmente, comecei a pensar que, do natal de 2008 para cá, algumas coisas mudaram na minha vida: voltei a dar aulas à noite e isso me tem cansado mais do que já cansou em outras épocas; hoje, sou Mestre em Letras, coisa que, honestamente, cheguei a pensar que não conseguiria ser. Estou meio entediado com minha vida profissional - não cansei de dar aulas, continuo apaixonado pela possibilidade de crescer ajudando pessoas a crescer, mas estou meio desgostoso com um dos lugares em que trabalho.  Nasci para dar aula, não para tourear picuinhas e "gente estúpida, gente hipócrita", como cantou um dia o ex-ministro Gil.

Outras coisas não mudaram tanto quanto deveriam ter mudado: continuo gordo, com a saúde em risco e estressado.

Mesmo assim, foi boa a sensação de ver que, conforme um dia eu sonhei, hoje moro em uma região legal de São Paulo e passear na Paulista pode fazer parte do meu cotidiano. Só falta administrar o tempo, coisa que nunca consegui fazer direito, como nunca consegui administrar minha vida financeira. Aliás, escrevi uma vez em um conto, nunca publicado, que minha vida é a literatura, a poesia, e lidar com dinheiro não é nada poético.

Planos para 2010? Voltar a ser gente (em 2008, não estava trabalhando à noite, podia caminhar, cuidar melhor da saúde, dormir mais e melhor), tocar o doutorado e voltar a ter na minha profissão uma alegria plena - vou livrar-me das "pessoas nefastas" - hoje estou com Gilberto Gil na cabeça - nem que seja aprendendo a me blindar.

Ou, talvez, baste um mês de férias para algumas coisas voltarem ao normal.



Escrito por Mauro Dunder às 22h23
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CAOLHO EM TERRA DE CEGO

Como já disse, sob o título de "Tanto pra dizer", coloquei-me novamente na condição de "-ando". Sou doutorando, por cinco anos. Por conta disso, estou frequentando a USP toda quinta-feira à tarde, fazendo a disciplina ministrada pela minha orientadora (figura fundamental na minha vida... Ao contrário de muita gente que conheço, tenho na Marlise um referencial para tudo o que sou como acadêmico e profissional e, depois de três anos de Mestrado, posso garantir que foi a melhor escolha que poderia ter feito...). E com essa história de fazer curso, ler textos, apresentar seminários e assistir às apresentações de colegas pós-graduandos, uma sensacão esquisita tem tomado conta da minha cabeça oca: como é que as pessoas chegam à pós-graduação  em Literatura (todos os alunos, ali, são candidatos a um título de Mestre ou de Doutor, ou, pelo menos, consideram essa possibilidade) sem saber ler um texto literário. Claro, são todos alfabetizados e letrados, conseguem ler o texto, mas não depreendem dele o que as palavras podem oferecer. E não é apenas uma questão de faltarem referências que ilustrem a leitura - conhecimentos de outras áreas, como filosofia, mitologia, psicanálise, por exemplo -, é mesmo uma questão de não atentar para o que as palavras dizem, o que, na minha cabeça - repito - oca, é o que há de mais fundamental para a leitura de qualquer texto.

Mais uma vez na vida, sinto-me na desagradável posição de "caolho em terra de cego". Desagradável, sim, porque sugere arrogância e porque mostra, em certa medida, que ter um título de Mestre (como o que eu tenho) pode não ser sinal de competência acadêmica, mas de puro esforço... E isso não representaria nenhum diferencial...

O sucateamento da educação já tem mestrado e doutorado...



Escrito por Mauro Dunder às 09h16
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VANUSA E O HINO

Para quem anda meio afastado do mundo - e do Brasil - nos últimos dias, uma das cenas mais tristes dos últimos tempos aconteceu aqui em São Paulo, esta semana. Não é cena de seca, nem de enchente,  nem de violência física. Foi triste porque uma das muitas belas vozes femininas que este país produziu protagonizou um espetáculo de horror na Assembleia Legislativa de São Paulo. Foi triste porque expôs ao ridículo uma profissional competente - Vanusa pode não ser um primor no repertório, mas canta muito. Mais triste, porque envolveu o nosso já tão combalido - apesar de lindo - Hino Nacional.

A moça errou o hino do começo ao fim. Tropeçou nas primeiras palavras e, a uma certa altura, trocou estrofes, palavras, versos, ritmo, melodia. Tudo.

Isso me levou a pensar no seguinte: o que andamos fazendo nas escolas, hein?

Não que tenhamos de voltar aos tempos em que, sem nem saber por quê, cantávamos o  Hino todas as segundas-feiras no pátio da escola. Também não é o caso, como já ouvi e li, de reduzir a letra para evitar desastres públicos. Mas creio - mesmo - que passou da hora de ensinar a COMPREENDER o que cantamos, e mais, a compreender por que cantamos.

Muito antes de Vanusa, Olga Bongiovanni, em seu antigo programa matinal, trouxe a tona o quanto o Hino nos passa despercebido. Ofereceu um prêmio de R$ 500,00 para quem cantasse a letra toda, sem errar. O prêmio cresceria a cada programa em que a missão não fosse cumprida. Quem acertou, acabou levando mais de R$ 10.000,00.

E os jogadores de futebol, que ganham mais do que eu ganharei em uma vida, num único ano, e que não conseguem nem começar o Hino?

Entre eles e a Vanusa, fico com ela. Foi vexatório, triste, melancólico. Mas deve haver alguma explicação. Ela, ao menos, sabe cantar. E bem.



Escrito por Mauro Dunder às 00h10
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VÊ LÁ SE ESSE CARA NÃO MANJAVA MUITO DAS COISAS...

"Num meio-dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas...
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.

Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!

Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.

Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as cousas.
Aponta-me todas as cousas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.

Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar no chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou –
«Se é que ele as criou, do que duvido» –
«Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres.»
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é o de saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo um universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das cousas só dos homens
E ele sorri, porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos-mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos os muros caiados.

Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.

Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.

Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?"

(Fernando Pessoa)



Escrito por Mauro Dunder às 23h25
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TANTO PRA DIZER...

Nos últimos dias, muitas vezes tem passado pela minha cabeça a seguinte frase: "Puxa, isso viraria uma crônica!". Obviamente, a motoniveladora da vida moderna leva embora o assunto da crônica e - Putz! Esqueci! - é o que fica. Assim, o texto de hoje é uma colcha de retalhos, coisas que me passam pela cabeça neste exato momento e que não têm nada a ver - nem umas com as outras, nem com nada mesmo:

1. A reforma ortográfica beneficiou a quem, mesmo?

2. Saudade de muitas pessoas: Luís Couto, Mara Goes, Renata Toledo, Shirley Barranco, Vivi Fernandes, Bianca, Lourenzo, Carol, Raquel, Sandra, Tânia, Taninha, Lu Prandina, Simone Malaspina, Fê Bellotto, Gugu Coelho, Regina Buongermino...

3. Quando é que a gente vai aprender que pôr o Sarney pra correr não muda a bandalheira do Congresso? Teríamos de colocar todos pra correr, isso sim...

4. Estou de novo na situação transitória de ser "-ando": fui Mestrando por três anos e, agora, sou Doutorando, por cinco!

5. Será que um dia Papagaio leva a fama?

6. Tenho vontade de voltar a estudar Fernando Pessoa.

7. 2010 - Serra Presidente???

8. "Quem me dera agora eu tivesse a viola pra cantar"

9. Esta foi do Daniel: "será que Deus lava cabelos?" - Não, não tínhamos bebido nem fumado nada ilegal...

10. "São Paulo respira melhor" - PALHAÇADA!

11. "Take a chance on me!"

12. "Pra dentro, Marta Saré!"

13. "Fofolete, presta atenção!"

14. "Cada fuso com seu uso" - essa quem me ensinou foi o Cleber.

15. "Pessoal, vamos lá? Aqui, nesse cantinho tão nosso..." - COMO EU ODEIO OUVIR ISSO!

16. Nhá Barbina, Zé Bonitinho, Pureza, Pantaleão, Bô Francineide - gente que me fez rir quando eu era pequeno...

17. Frase mais repetida dos últimos dois dias: "Salve a calcinha da professorinha!" - Piada interna... Rs...

18. Meus amigos, meus alunos, o Daniel e minha família...

 



Escrito por Mauro Dunder às 23h22
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FÉRIAS, MARTA SARÉ, SAUDADE DO QUE NÃO VIVI...

Escrevi, certa vez, uma crônica - hoje perdida, depois de tantas reformatações - que as férias são, sob certo ponto de vista, prejudiciais ao homem. Elas nos fazem perceber a insanidade em que vivemos ao longo dos outros 11 meses do ano. Pois bem, estou de férias, novamente (para ser honesto, quase no final delas) e minha opinião mudou drasticamente. As férias são benéficas. Exatamente pela mesma razão que, oito anos atrás, fez-me considerá-las maléficas: é só durante as férias que a gente adquire(ou readquire) consciência de várias coisas importantes. O tempo é escasso para tantos amigos, tantas visitas que gostaria de fazer, para dedicar à minha mãe - hoje mais minha amiga do que nunca - e a mim mesmo. E as férias permitem que isso aconteça - ainda numa frequência bem menor do que deveria, mas acontece.

Uma das consciências que estas férias me permitiram retomar foi a do quanto minha vida é rica. Quem me conhece sabe que não estou falando de conta bancária - negativa, como a de 99% da população -, nem de minha carteira - hoje, bem vazia. E o que me fez perceber o quanto sou querido pelo Destino foi uma prosaica visita ao meu próprio perfil de Orkut. Pode até ser uma bobagem, mas tive o cuidado de reler algumas coisas que algumas pessoas me escreveram. E descobri, virtualmente, que sou feliz concretamente.

Tenho amigos, grandes amigos - daqueles que se contam nos dedos de uma mão - para contar nos dedos das duas mãos e em mais alguns dos dedos dos pés. Tenho uma família que me fez quem eu sou, tenho uma profissão que amo e que exerço para ser feliz. Tenho um amor, minha casa e dois cachorros.

Obviamente, tenho minhas indignações. E elas é que me fazem perceber, muitas vezes, o quão rica tem sido até aqui minha experiência neste planeta. Vivo de tudo: amores, dores, paixões, apatias, desgostos, prazeres. E se isso não é ser feliz, prefiro acreditar que é. E que sou.

 

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Da seção "Nostalgia que me persegue": já escrevi aqui que tenho saudade até do que não vivi. Nos últimos dias, tenho dedicado boa parte do meu tempo a escrever material didático - não disse que também vivo dores? - e, nos intervalos, um nome me veio à cabeça: "Marta Saré". Explico: como também já disse aqui, li, nas férias do ano passado, "A Era dos Festivais", do Zuza Homem de Melo. E ele cita, quando fala do Festival de 1968, o segundo lugar de Edu Lobo e Marília Medalha, com a composição de Edu e de Gianfrancesco Guarnieri, "Memórias de Marta Saré". Desde que li o livro, o nome me capturou pelo ouvido. Agora, perambulando pela internet, resolvi procurar algo que me mostrasse a música. Encontrei, para minha surpresa, dois vídeos no YouTube - um, inclusive, de 2006, com a Marília Medalha revisitando a música. E confesso que, mais uma vez, a sensação que me invadiu foi a tal melancolia do que não vi. Que delícia ver e ouvir Edu e Marília, cantando com uma intensidade invejável, uma letra aparentemente tola, mas que de tola não tem nada! Resultado: estou apaixonado por Marta Saré e por Marília Medalha.
Mário Chico, ser melancólico é gostoso, viu? Mesmo que, constantemente, eu apenas usurpe a melancolia de quem viveu aqueles tempos difíceis, mas riquíssimos...
Vão os links dos vídeos:
1. "Memórias de Marta Saré" - 1968 - 4o. Festival da Record:http://www.youtube.com/watch?v=_NXhdKbuprE&feature=related
2. "Memórias de Marta Saré" - 2006 - Projeto "Em cena, ações", de Heron Coelho, SESC Ipiranga:http://www.youtube.com/watch?v=qeJXJYbzhRY


Escrito por Mauro Dunder às 15h11
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EXISTE VIDA ALÉM DOS JARDINS...

Este ano tem sido, para mim, um momento de reencontros... Voltei a trabalhar à noite, em duas instituições que já haviam feito parte de minha vida pré-Escola Graduada. Por conta disso, tenho ido, todas as segundas-feiras, ao Tatuapé. E tenho visto uma manifestação - a respeito da qual até já havia lido algo, mas de que não me lembrava - que é no mínimo benéfica à cidade - só por existir.

Nesse dia, centenas de jovens - bem jovens, mesmo - reunem-se no Shopping Metrô Tatuapé e nos acessos à estação de metrô, para conversar, namorar, passear e - por que não - dizer ao mundo que existem, e que são gays, lésbicas e simpatizantes, sim, senhor. Confesso que quando vi esse monte de gente junta, achei meio incômodo - o que é que tanta gente tá fazendo aqui, meu Deus? São 22h30 e quero ir pra casa!". Foi quando reparei que meninos andavam de mãos dadas,  meninas se abraçavam e trocavam carinho. E aí me dei conta de duas coisas: a primeira é que existe vida gay fora dos Jardins.  Gay é gay em tudo que é lugar e os sentimentos, medos, desejos e expectativas de um gay que vive na zona Leste não são assim tão distintos dos sentimentos dos que moram nas Alamedas dos Jardins. Até porque os gays que vejo no Metrô Tatuapé hoje são muitíssimos parecidos com os que vi, durante anos, na esquina da Rua da Consolação com a Alameda Itu, no velho Bocage.

A segunda é que, sim, há vida inteligente e sensível na zona Leste, como na Sul, na Oeste e na Norte. Posso até receber dezenas de críticas (pretensão pura, ninguém lê isso aqui mesmo...), mas eu carregava comigo o estereótipo que muitos outros paulistanos carregam. Os bairros da zona leste caracterizam-se por uma grande quantidade de operários, tanto os que enriqueceram - mas na alma são operários - e foram para o Jardim Anália Franco, quanto os que são explorados por esses últimos, e moram pra lá de Itaquera. Não sei quando foi, mas aprendi (emos) a associar pobreza, simplicidade financeira com ignorância humana. Sempre achei que gente mas rústica e rude não aceitaria a sofisticação de pensamento que a aceitação da diferença demanda. Ou o Tatuapé é uma ilha de exceção ao mar de Leste, ou a zona Leste está aí para ensinar que todo mundo pode ser melhor do que se pensa... Quero muito acreditar  na segunda hipótese... Mas basta entrar no shopping propriamente dito e ver um bando de gente que fala alto demais, gesticula demais, acha que vai se dar muito melhor por empurrar alguém na fila e passar na frente, que tudo isso vai por água abaixo... Mas isso, francamente, é coisa da tal "raça humana", independentemente da zona em que vive - sim, leitor, o trocadilho é intencional.



Escrito por Mauro Dunder às 12h32
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MAIS DO MESMO... E É BOM...

Estou aqui em casa, assistindo, pela enésima vez, ao tributo feito a Freddie Mercury, na década de 1990. Ao ver figuras como David Bowie, Annie Lennox, George Michael, artistas que fizeram parte da minha adolescência e que, mesmo hoje, continuam por aí, fazendo sucesso, começo a duvidar daquela pressão gigantesca que sofremos, todos - em menor ou maior medida, mas todos -, pelo novo, pelo diferente, por aquilo que se convencionou chamar, na era da velocidade, de "criativo".

Temos a obrigação de inovar, o que sempre deu certo precisa ser substituído pelo novo, porque... é novo! E o antigo não serve mais, é coisa de "tempos d'antanho", para usar uma expressão, essa sim, antiga. E precisa ser substituído, porque.... é velho! Não porque não sirva mais, não porque se descobriram maneiras de fazer melhor, mas simplesmente, muitas vezes, simplesmente porque é "velho".

E nem venham me dizer que isso é coisa de brasileiro, que não tem memória e não respeita seus idosos, nem sua idosa mais idosa de todas, a própria história. Não mesmo.

Até porque, muita coisa nova deveria também ser substituída... Talvez pelo velho, que funcionava... Ou alguém duvida que Freddie Mercury, compulsoriamente substituído, é melhor do que o Axl Rose (que aparece, neste momento, na minha televisão, assassinando "We will rock you"...)? Será que alguém aí também duvida que Elton John é melhor do que qualquer uma dessas cantoras pop que, para mim, são todas iguais (nem peça pra eu dizer quem é a Mariah Carey ou a Christina Aguillera...)?

Não é saudosismo, nem apego ao passado. Sem dúvida, algumas coisas mudaram para muito melhor. Esta maquininha que uso para escrever este texto é a prova disso. Não há saudosismo nem melancolia que me façam acreditar que as velhas Olivettis eram melhores do que meu PC, com todos os problemas que ele possa ter. Também não se contesta que ter uma pneumonia hoje assusta, mas muito menos do que há 100 anos, graças aos avanços da medicina. Mas que não se pode generalizar, isso é certo. Aliás, a idéia de que prudência e equilíbrio são fundamentais e nos ajudam a ver o mundo com mais clareza é milenar. E não se desmente. Nunca.

Em tempo: agora é Lisa Minelli quem canta "We are the champions". Quer combinação melhor? Só se Freddie estivesse com ela, ao vivo e em cores, em carne e osso...

Taí, Mário Chico. Acho que isso explica, ao menos em (pequeníssima) parte, essa minha esquisitice de ter saudade...

 



Escrito por Mauro Dunder às 11h50
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QUALIFICADO PARA 2009. SERÁ?

Uns dois posts atrás, comentei que o exame de qualificação de minha dissertação de mestrado se aproximava. Pois bem, passou, fui aprovado e, teoricamente, tenho condições de continuar trabalhando na dissertação para defendê-la até julho.
Passado esse turbilhão, mais um congresso de que participei em Santa Maria, interior do Rio Grande do Sul - sim, amigos paulistanos, existe, sim, vida intelectual no Brasil fora da bolha uspiana -, dou as caras para o balanço, não de final de ano, mas, agora, de começo de jornada...

2008 foi um ano difícil. De várias conquistas, mas bem difícil...  Para se ter uma idéia do tamanho da encrenca, minha irmã Kelly comentou outro dia que " agora o Mauro está muquirana... Chorando até centavos". Pra quem me conhece, sabe a proporção da transformação que isso representa (embora eu não esteja, efetivamente, chorando centavos...). Pela primeira vez, nos últimos 18 anos, não trabalhei aos sábados, nem à noite - isso, sim, é uma grande transformação. Pela primeira vez, estou morando sozinho - e mais - no meu próprio apartamento. Pela primeira vez, tenho um namorado que comemora comigo o quarto reveillon. Pela primeira vez, estou concluindo coisas que comecei, em seu prazo - se levei quatorze anos e meio para terminar a graduação, imagine o quanto levaria para ser Mestre e, depois, Doutor... Como costumo dizer na brincadeira, acho que me doutoraria lá pelos 80 anos, se a coisa fosse no mesmo ritmo. Pela primeira vez, faço parte de um Grupo de Pesquisa cadastrado no CNPq - precisei sair de Sampa pra isso acontecer. Muita coisa! Pela primeira vez, nos últimos 10 anos, minha amiga-irmã Patrícia está morando em Sampa - e, pela primeira vez na vida, a menos de dois quilômetros da minha casa.

2009 vem aí, com várias coisas para acontecer: vou voltar a dar aulas à noite, vou terminar a reforma da "ala social" do apê, vou estudar espanhol, vou defender meu mestrado, vou viver intensamente mais um ano com o Daniel, vou curtir muito minha amiga-irmã. Vou viajar para o exterior, vou, pasmen, tomar café-da-manhã com o Pluto e o Pateta. Mas serei realista: não vou conseguir resolver todos os meus problemas de grana, provavelmente não vai sobrar dinheiro nem vou voltar a ter dinheiro para as coisas desnecessárias, mas que enchem a vida com um pouco mais de graça... E isso me faz pensar que todo o tempo que vivi gastando dinheiro para encontrar essa graça foi uma espécie de desperdício. Ou quem sabe, de expurgo. Talvez eu tivesse mesmo que me desfazer de todo o meu espírito consumista para descobrir que, com toda a pieguice que esta frase de comercial de margarina traz, a felicidade é muito mais barata do que pude, um dia, imaginar.

Tenho certeza de que este ano será significativo na minha história. Todos são, é óbvio. Mas este, sinto, deixará sua marca. E eu serei, mais uma vez, feliz...



Escrito por Mauro Dunder às 17h01
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A SÍNDROME DO PEQUENO-CHEFE...

Que esta "República Temporã" sofre de uma série de "achaques", Mário de Andrade e Gregório de Matos, respectivamente, já haviam dito. Mas, ultimamente, tenho reparado - ou tem aparecido com mais explicitude - numa síndrome que me incomoda muito: a do pequeno-chefe (muito provavelmente, inclusive, o leitor deste texto concluirá que ele - o texto - também é um sintoma da síndrome, mas tudo bem...).

Hoje, ao vir para a escola, ouvi - para ser preciso, não pude deixar de ouvir - a conversa entre o motorista do ônibus e seu assistente a respeito da possível desapropriação, por parte da Prefeitura de S. Paulo, de uma favela para construir a continuação da Avenida Águas Espraiadas. Ao ouvir do assistente que "o Kassab inventou" a tal desapropriação e que, para isso, pagaria R$ 5000,00 a cada proprietário de moradia, o motorista disse: "Tá certo! Já era pra ter tirado essa gente dali mesmo.", insensível às interpelações do outro rapaz: "Como assim! E aonde essa gente vai morar?!?" " Ah, problema deles, constrói o barraco em outro lugar!"

Meu coração quase saiu pela boca. Como assim? Mas esse motorista não é proletário, como eu, como os trabalhadores e como, provavelmente, muitos dos moradores da favela? O que é que temos feito, como sociedade, para que pessoas tenham essa visão tão distorcida de algumas coisas? Eu já pensava nessas coisas, aterrorizado o suficiente para uma segunda-feira, às sete e meia da manhã, quando, incrivelmente, tudo piorou: "Sabe por que é que não tiraram essa gente de lá ainda? Por causa desse povo de Direitos Humanos, desses ambientalistas que não têm mais do que fazer..."

Além, é claro, de toda a confusão que se fez entre direitos humanos, ambientalismo e questões sociais, o que mais me chocou foi o pensamento individualista e pretensioso. Ainda que as pessoas de classes sociais superiores pudessem, legitimamente, achar que favelados não merecem nenhuma consideração, o que dizer de alguém que, possivelmente, se ficasse desempregado, teria de se mudar para uma favela?

É a mesma mentalidade que repete, como papagaio, que "bandido é na cadeia, gente boa é na rua", de preferência com a "Rota na rua". Não que o papel da prefeitura não seja urbanizar a cidade e, por conseqüência, diminuir o número de favelas. Mas não é assim que se resolve a coisa, ainda mais para construir avenida - que, de quebra, só vai servir ao motorista que julgou a questão para trabalhar, eu acho...

Por que é que, ao menos no Brasil, a síndrome do pequeno-chefe (pequeno-burguês) não passa? Por que é que nos damos o direito de, do alto de nossa vida assalariada e de prazeres tão escassos, julgar quem tem ainda menos, como se o ter fosse o que realmente importa? Será que é mesmo só culpa do Capitalismo Selvagem dos Homens Primatas, ôoo?

Mário Chico, Luís Cêssarrrrrrr, Resendinho, respondam essa aí, vai...
 



Escrito por Mauro Dunder às 10h59
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AI, AI, AI... DE ANO EM ANO? BEM, PELO MENOS, AGORA, FORAM QUATRO MESES...

É... Anda complicado passar por aqui... Assunto não falta, mas o tal do tempo, que eu já confessei não saber administrar, anda me pegando no pé. É certo, ainda, que o tal do tempo, ultimamente, tem nome, endereço e cédula de identidade: a minha orientadora de mestrado. Mas isso não vem muito ao caso, não...

Ando numa fase saudosista. Apesar de isso soar óbvio para quem me conhece de verdade - e sabe que, às vezes, sinto saudade até do que não vivi -, ultimamente me pego pensando, por exemplo, nos tempos em que fiz faculdade, nas pessoas que conheci naqueles tempos. E, de vez em quando, chego a sentir saudade daqueles tempos em que, duro como sempre, não tinha grana nem para o pão-de-queijo no bar do Valdemar (outra saudade! O Mackenzie é um dos meus amores, mas aquela praça de alimentação com Benjamin Abrahão e tudo o mais não me convence...).

E por falar em saudade, outro dia estava eu conversando com o Mário - não,  não é aquele, não -, professor de português lá da Graduada, onde, desde janeiro do ano passado, gasto oito horas do meu dia dando aulas, sobre uma das leituras mais saborosas dos últimos tempos, ao menos para mim: A era dos festivais, do Zuza Homem de Mello. Para quem gosta de conhecer detalhes e bastidores dos eventos que marcaram tempo na cultura brasileira, esse é imperdível. Para quem, como eu, tem saudade de tudo, até do que não viu de perto, é orgasmo textual garantido. Vale a pena encarar as mais de seiscentas páginas (sim, seiscentas...) e deliciar-se com os comentários, as anedotas e as fotos de uma das passagens mais agitadas da cultura brasileira do século XX. De quebra, a gente ainda começa a entender um pouco melhor porque é que a Mulher Melancia e outras frutas conseguiram existir...

E por falar em cultura brasileira - esse ente tão abstrato que leva algumas pessoas a perguntarem, inclusive, se ele existe mesmo -, a televisão brasileira grita por socorro há tempos, mas parece que alguém ouviu. Marcelo Tas (careca, claro, como os mais inteligentes, espertos e charmosos), cercado de humoristas jovens, criou a geléia geral que nos salva do tédio das segundas-feiras à noite. No país em que, de acordo com o Síndico, "puta goza, traficante cheira e pobre vota na direita", o CQC - Custe o Que Custar - é o atestado de que, se não se aprende pelo amor, é possível esculhambar com classe...

 

E por falar (nossa, quanta coisa!) em pobre que vota na direita, vou citar tia Rita Lee: "Ai, ai, meu Deus, o que foi que aconteceu?". Não é que o Kassab levou a eleição? Bons tempos em que os que sentavam-se na cadeira de Prefeito antes de serem eleitos levavam a pior... Tudo bem, a Marta pisou na bola, mandou a gente relaxar e gozar - nem levou em conta que nas cadeirinhas de avião mal dá para viajar, quanto mais para relaxar... Gozar, então, nem a pau - literalmente... Mas será mesmo que a tia merecia a lavada que levou? Será que a Marta é o primeiro caso de rejeição ao Botox em que os sintomas não aparecem no corpo de quem passou pelo tratamento, mas nos outros? Sugestão pros petistas: faz assim, implode, começa tudo de novo e traz a Erundina de volta (minha tese sobre ela é que ela saiu do PT por ser petista demais, acreditar em toda aquela história em que nós também acreditávamos, de luta e mudança, ética e o escambau...). Nela eu voto sem drama de consciência...

Acho que só volto ano que vem... Minha qualificação se aproxima e a defesa não deve tardar. Mas passo aqui pro piegas e tradicional "balanço de fim de ano"...



Escrito por Mauro Dunder às 10h59
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