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EXISTE VIDA ALÉM DOS JARDINS...

Este ano tem sido, para mim, um momento de reencontros... Voltei a trabalhar à noite, em duas instituições que já haviam feito parte de minha vida pré-Escola Graduada. Por conta disso, tenho ido, todas as segundas-feiras, ao Tatuapé. E tenho visto uma manifestação - a respeito da qual até já havia lido algo, mas de que não me lembrava - que é no mínimo benéfica à cidade - só por existir.

Nesse dia, centenas de jovens - bem jovens, mesmo - reunem-se no Shopping Metrô Tatuapé e nos acessos à estação de metrô, para conversar, namorar, passear e - por que não - dizer ao mundo que existem, e que são gays, lésbicas e simpatizantes, sim, senhor. Confesso que quando vi esse monte de gente junta, achei meio incômodo - o que é que tanta gente tá fazendo aqui, meu Deus? São 22h30 e quero ir pra casa!". Foi quando reparei que meninos andavam de mãos dadas,  meninas se abraçavam e trocavam carinho. E aí me dei conta de duas coisas: a primeira é que existe vida gay fora dos Jardins.  Gay é gay em tudo que é lugar e os sentimentos, medos, desejos e expectativas de um gay que vive na zona Leste não são assim tão distintos dos sentimentos dos que moram nas Alamedas dos Jardins. Até porque os gays que vejo no Metrô Tatuapé hoje são muitíssimos parecidos com os que vi, durante anos, na esquina da Rua da Consolação com a Alameda Itu, no velho Bocage.

A segunda é que, sim, há vida inteligente e sensível na zona Leste, como na Sul, na Oeste e na Norte. Posso até receber dezenas de críticas (pretensão pura, ninguém lê isso aqui mesmo...), mas eu carregava comigo o estereótipo que muitos outros paulistanos carregam. Os bairros da zona leste caracterizam-se por uma grande quantidade de operários, tanto os que enriqueceram - mas na alma são operários - e foram para o Jardim Anália Franco, quanto os que são explorados por esses últimos, e moram pra lá de Itaquera. Não sei quando foi, mas aprendi (emos) a associar pobreza, simplicidade financeira com ignorância humana. Sempre achei que gente mas rústica e rude não aceitaria a sofisticação de pensamento que a aceitação da diferença demanda. Ou o Tatuapé é uma ilha de exceção ao mar de Leste, ou a zona Leste está aí para ensinar que todo mundo pode ser melhor do que se pensa... Quero muito acreditar  na segunda hipótese... Mas basta entrar no shopping propriamente dito e ver um bando de gente que fala alto demais, gesticula demais, acha que vai se dar muito melhor por empurrar alguém na fila e passar na frente, que tudo isso vai por água abaixo... Mas isso, francamente, é coisa da tal "raça humana", independentemente da zona em que vive - sim, leitor, o trocadilho é intencional.



Escrito por Mauro Dunder às 12h32
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