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CAOLHO EM TERRA DE CEGO

Como já disse, sob o título de "Tanto pra dizer", coloquei-me novamente na condição de "-ando". Sou doutorando, por cinco anos. Por conta disso, estou frequentando a USP toda quinta-feira à tarde, fazendo a disciplina ministrada pela minha orientadora (figura fundamental na minha vida... Ao contrário de muita gente que conheço, tenho na Marlise um referencial para tudo o que sou como acadêmico e profissional e, depois de três anos de Mestrado, posso garantir que foi a melhor escolha que poderia ter feito...). E com essa história de fazer curso, ler textos, apresentar seminários e assistir às apresentações de colegas pós-graduandos, uma sensacão esquisita tem tomado conta da minha cabeça oca: como é que as pessoas chegam à pós-graduação  em Literatura (todos os alunos, ali, são candidatos a um título de Mestre ou de Doutor, ou, pelo menos, consideram essa possibilidade) sem saber ler um texto literário. Claro, são todos alfabetizados e letrados, conseguem ler o texto, mas não depreendem dele o que as palavras podem oferecer. E não é apenas uma questão de faltarem referências que ilustrem a leitura - conhecimentos de outras áreas, como filosofia, mitologia, psicanálise, por exemplo -, é mesmo uma questão de não atentar para o que as palavras dizem, o que, na minha cabeça - repito - oca, é o que há de mais fundamental para a leitura de qualquer texto.

Mais uma vez na vida, sinto-me na desagradável posição de "caolho em terra de cego". Desagradável, sim, porque sugere arrogância e porque mostra, em certa medida, que ter um título de Mestre (como o que eu tenho) pode não ser sinal de competência acadêmica, mas de puro esforço... E isso não representaria nenhum diferencial...

O sucateamento da educação já tem mestrado e doutorado...



Escrito por Mauro Dunder às 09h16
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